Esta semana foi lançada uma capa da revista "Womens Health" que gerou um pouco de controvérsia. À primeira vista parece mais uma no meio de muitas, contudo, se olharmos mais a fundo, contém certos aspetos que podem dar azo a más interpretações. Portanto decidi ser mais uma blogger a falar do assunto. Não sou nutricionista nem psicológa, sou enfermeira, no entanto neste post não vou escrever sob esse papel, vou fazê-lo apenas como de mulher, e como uma outrora adolescente que lia estas revistas e, apesar de já ser magra (supostamente o topo do padrão de beleza ocidental), me questionava porque é que tinha estrias e barriga a mais e aquelas mulheres das capas não. Mas isso era em 2000 e tal. Ainda me faz um pouco de confusão ver revistas em 2020 com esta linha editorial, numa era em que reinam as redes sociais que (à partida, muitas vezes não é o caso como todos sabemos) nos aproxima mais de pessoas reais.
Antes de mais nada, quero dizer que não tenho nada contra quem quer a mudar o seu corpo, aliás eu apoio todos os meus amigos que desejam embarcar na aventura da perda de peso. Tento é apoiá-los de forma a que não o façam pelos motivos errados nem de formas pouco saudáveis e duvidosas, para que este processo seja o mais satisfatório possível para eles.
Vou fazer apenas um breve resumo da situação que gerou polémica, para quem ainda não tem conhecimento e contextualizar o tema que quero abordar. A
influencer que foi convidada pela revista afirma ter-se esforçado para perder peso nos últimos 7 meses. Até aqui tudo bem. O problema foram algumas afirmações que fez a seguir. Uma nutricionista no Twitter, a Helena Trigueiro, fez
uma série de tweets que explicam melhor do que eu o porquê destas afirmações serem um pouco problemáticas, que convido-vos a ver antes de continuarem a ler.
Acima de tudo, aquilo desejo a todas as pessoas que estão a mudar o seu estilo de vida para se sentirem melhor consigo mesmas é que esta mudança vos traga alegria, mas que percebam que esta acarreta que se façam mudanças interiores, nomeadamente a nível de autoestima, similarmente drásticas. Porque, momento chocante, ser magro/a não vos irá fazer automaticamente felizes (acreditem, eu sei do que falo, fui assim a vida toda), e passo a explicar porquê.
1. Não vos vai dar mais autoconfiança: Ao contrário da crença popular, perder peso não nos aumenta a confiança automaticamente. Às vezes sim, até acontece, por ser a única coisa na nossa vida com a qual estávamos insastisfeitos, apenas medianamente (da mesma forma que quem está insastifeito com a cor do cabelo e o pinta de outro cor) porém, grande parte das vezes, esta necessidade está ligada a inseguranças muito mais profundas do que isso, talvez de anos, que precisam de ser trabalhadas com a mesma intensidade. O velho cliché dos filmes (embora um pouco inadequado) de uma pessoa dita "normal" que continua a ver-se como "gorda" é verdade. Aprendermos a amar o nosso corpo demora muito mais tempo do que emagrecer, e aceitarmos que, mesmo depois de uma mudança incrível, continuaremos a odiar coisas nele ainda custa mais a aceitar. É preciso tempo, muito tempo, muito apoio das pessoas que nos amam, e muitas frases positivas ao espelho para realmente aumentarmos a nossa autoconfiança.
2. Tira o foco da saúde: Algo que vejo muito nas redes sociais é o facto de estarem sempre a focarem-se no peso e não na saúde. Ser magro/a não vos torna automaticamente mais saudáveis. Eu que o diga que, quando era mais nova, comia imensas porcarias (principalmente chocolate, a minha perdição). Eu era magra, mas tinha zero de estilo de vida saudável. Agora sinto-me muito melhor que não bebo refrigerantes, bebo água todos os dias e tento ter uma alimentação o mais variada possível. Este ponto depende muito da forma que escolhem para emagrecer, se por uma via mais saudável ou menos saudável. E também, claro, de fatores que não controlam, como a genética, que podem influenciar o vosso índice de massa corporal. O mais importante, no final da mudança, não é número da balança, é o que vocês comem.
3. Não vos vai dar amigos nem uma melhor vida amorosa: Não sejamos hipócritas, obviamente que a aparência tem um grande peso na formação nestes dois tipos de relações. Contudo, não é o único factor que importa na equação das relações humanas. Eu adoro uma citação que é muito ilustrativa daquilo que quero transmitir aqui - "beauty comes from within" (traduzindo, a beleza vem do interior). Eu falo por mim, eu automaticamente considero as pessoas mais bonitas consoante a personalidade. E não é preciso eu falar muito com elas, noto logo na primeira impressão, as pessoas em si transmitem uma energia muito própria que faz com que outras se interessem em falar com elas. Eu acho que essa é a verdadeira magia da socialização, mais do que uma boa aparência.
4. Pode não vos abrir mais portas: Mais uma vez, não sejamos hipócritas, uma boa aparência é importante em muitos sítios, até nas entrevistas de emprego. Mas não é tudo. Simpatia, à vontade, ser social e ter competências para a experiência oferecida são ferramentas que abrem muitas mais portas do que o vosso corpo (a não ser que sejam modelos, nesse caso ainda é o que pesa muito). Podem achar que sim, que perder peso vos abriu mais portas, porque lá está, tem a ver com o ponto 1, a vossa autoestima foi igualmente trabalhada ao mesmo tempo, e isso teve muito mais influência numa oportunidade que tenham conseguido.
5. Não vos torna, no imediato, pessoas mais felizes com a vida: Emagrecer pode ser um passo para serem mais felizes, no entanto, na complexidade que são as vidas humanas, há tanta coisa que pode afetar a nossa felicidade, que considerar que isso é a garantia para sermos logo mais felizes é um pensamento falacioso. E não vejam isto como algo dececionante. Há tantas coisas que podem fazer para sentir alegria, todas uma luta diária mas, ainda assim, todas gratificantes no final. Emagrecer é a só uma delas, pensem nisto como um passo no grande plano de objetivos que podem atingir, não é entusiasmante existir possibilidades infinitas de sermos melhores?
Independentemente daquilo que a sociedade estabeleça como "bonito", o que importa aqui é gostarem ou aprender a gostar de vocês mesmos, e a imagem que vêem ao espelho corresponder à forma como se sentem, verdadeiramente bem.