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21.3.20

Ter acabado o curso mais tarde faz de mim burra?

Ter acabado o curso mais tarde faz de mim burra?

(As socas que me acompanharam nos meus 4 anos e meio de estágios em Enfermagem. Faziam-me doer os pés, mesmo com as palmilhas que eu lhes coloquei  numa tentativa, em vão, de as tornar mais confortáveis. Estive para comprar umas novas, mas dei por mim a não me conseguir desfazer deste calçado que me acompanhou desde os 18 aos 22 anos. Fizeram-me doer os pés, tal como o meu percurso me causou dores de crescimento. E tentei torná-las mais confortáveis mas, tal como este mesmo percurso, nem sempre é possível fazê-lo, porque aprender nem sempre é confortável. Mas, no final, orgulho-me de olhar para elas, assim como para todo o meu percurso)

Todos nós conhecemos aquela malta da faculdade que anda por lá a passear livros e a acumular matrículas. Aquelas pessoas que levam com o famoso comentário "oh prima, ainda andas na faculdade?". E, por muito que isto nos confira o estatuto de Cardeais ou de Veteranos na praxe (dependendo das tradições da universidade que frequentamos), ninguém suficientemente empenhado na sua vida quer ser esse tipo de estudante. Eu certamente que não queria.

Quando entrei para a faculdade, aos 18 anos, na minha primeira opção (tal como as expectativas sociais o ditavam), eu jurei a mim mesma que não iria ser esse tipo de estudante. Que nunca iria deixar cadeiras para trás ou que iria reprovar no que quer que fosse, nem numa única frequência. Mas a vida decidiu-me atirar com um grande balde de água fria, como o faz de vez em quando.

Como os leitores mais atentos devem saber, há 3 anos eu reprovei num dos meus estágios do 2º ano, em Oncologia. Em parte foi por motivo de doença (uma inflamação de intestino que, sei agora, poderá ter sido desencadeada por uma grande crise de ansiedade),  mas isso não me impediu de ser muito dura comigo mesma. Fiquei absolutamente desolada! E estaria a mentir se dissesse que foi apenas por saber que a minha entrada no mundo profissional iria ficar adiada. Não, a verdade é que esta reprovação foi também uma valente facada no meu ego. 

Toda a minha vida, eu fui sempre uma boa aluna. Nunca fui um "crânio", nunca cheguei a esse patamar, mas fui sempre uma aluna com um bom percurso académico: sempre com 4s e 5s no Básico  (tirando a Educação Física e a Artes Visuais, nisso era uma "nódoa") e 17s e 18s no Secundário. Aquela aluna que ouvia muitas vezes "esta vai ter  futuro".  Nunca reprovei em nenhum ano, disciplina ou teste. Portanto, agora já estão a visualizar melhor o choque que foi quando soube que reprovei num estágio no meu 2º ano de faculdade. 

Este acontecimento deixou-me com a confiança muito abalada. Eu, que sempre me habituei a ver-me de certa forma que alguém que, por muito que entrasse em stress com as notas, sabia que de certo patamar nunca descia - porque era inabalavelmente empenhada - perguntei-me porque é que falhei. Sentia-me burra, igual àqueles que acumulam matrículas. Tive vontade de desistir do curso porque, de repente, achava que não tinha perfil nenhum para ser enfermeira. Felizmente, tive pessoas que me ouviram e me, apoiaram qualquer que fosse a minha decisão, mas que disseram para eu esperar, para continuar. Se depois chegasse mesmo à conclusão que queria desistir, ia sempre a tempo. Porque, meus amigos, desistir não tem mal nenhum. Mas quando estão com a confiança fragilizada e a motivação lá no fundo, a vontade de desistir pode ser apenas uma partida do vosso cérebro, das vozes negativas que lá habitam. Não se toma este tipo de decisão quando a vossa saúde mental está uma merda, e estou grata por ter tido pessoas que não mo deixaram fazer logo na hora. 

O estágio seguinte do 2º ano (em ortopedia para os curiosos), fez-me recuperar parte da minha motivação. Descobri ali uma das primeiras áreas pela qual me interessava muito. No 3º ano, o ano das especialidades, recuperei ainda mais, com uma variedade de áreas que me atraíram e me fizeram relembrar o motivo pelo qual eu escolhi Enfermagem.

Com a ideia de desistir finalmente fora da cabeça, isso não significa que eu não tenha passado o resto do curso a duvidar do meu valor na mesma. Fiquei de tal forma com o trauma daquela reprovação que suspirava de alívio a cada estágio que não reprovava, mesmo que, a maior parte das vezes, o meu desempenho fosse muito mais que satisfatório, eu trabalhasse para mais do que isso e, em alguns casos, eu chegasse até ao 16 ou 17. É estúpido, eu sei, mas tentem dizer isso ao meu cérebro ansioso. Só descontraí mesmo quando acabei o curso, com 16 no Estágio de Integração. Mas, pela primeira vez em muito tempo, vi mais para além do resultado final.

Foi no meu Estágio de Integração que eu acabei por me sentir uma verdadeira enfermeira. Com a ajuda de dois grandes orientadores (do centro de saúde onde estagiei e do hospital), aprendi a reconhecer as minhas competências, a minha paixão por aquele curso e, mais importante que tudo, a minha dedicação presente em todos os momentos. Resumindo, aprendi a dar mais valor ao meu desempenho do que ao resultado final. Foi aí que deixei o medo de não ser boa o suficiente me deixasse de perseguir. E aqui estou eu agora, uma licenciada orgulhosa e que tem tantas competências como quem acabou em junho. 

Assim, a pergunta que aqui se coloca é: ter acabado o curso mais tarde (6 meses mais tarde, foi uma sorte ter conseguido o meu estágio em Época Especial) faz de mim mais burra que os outros? Faz de mim uma pior enfermeira? Faz de mim uma estudante desleixada? A resposta é não, não e não. Nada na vida é assim tão linear, e isso aplica-se também ao mundo universitário.

As perguntas que deveríamos estar, antes, a fazer é: porque é que somos tão duros connosco mesmos, mesmo quando não podemos controlar tudo o que nos acontece? Porque é que sentimos que estamos numa corrida contra os outros? Porque é que sentimos que um único acontecimento negativo nos define completamente?

A universidade é dura. A frase "é fácil entrar, difícil é sair" não é uma mera piada universitária. É porque é mesmo difícil para caraças! Os cursos são cada vez mais exigentes, e somos também apanhados na transição da adolescência para a vida adulta, algo que nos causa muitas dores de crescimento. Nada disso é fácil. Por isso, temos que parar de sentir necessidade de sermos constantemente os melhores. O sucesso não é nenhuma corrida. O mais importante é  aprendermos ao nosso ritmo  e termos fé que concretizaremos os nossos sonhos, demore o tempo que demorar. Quer isso signifique acabar o curso aos 23, 24 ou 25 anos (aí ainda têm toda uma vida pela frente na mesma) quer isso implique congelar matrículas e fazer uma pausa para recuperar a nossa saúde física e/ou mental, ou quer isso implique passar por isto tudo e chegar à conclusão "afinal, não é isto que quero, quero mudar de curso". No entanto, o que quer que escolham fazer, não deixem que estes anos, que devem ser dos mais felizes da vossa vida de estudante, vos destruam por dentro. O futuro será sempre sorridente para aqueles que lutam por ele.

(Foto: da minha autoria)

29.1.20

2020: o ano do futuro e o fim da nossa infância

 2020: o ano do futuro e o fim da nossa infância

(Esta publicação foi escrita ao som de "Midnight City" dos M83. Achei importante avisar para o caso deste texto soar nostálgico demais).

Não sei se também está a acontecer o mesmo com vocês mas, apesar de já estarmos há algumas semanas em 2020, ainda custa a acreditar que estamos no início de uma nova década. Pode não parecer nada de especial mas, se pensarmos que, no final desta década, nós, a malta da casa dos 20 (sem querer discriminar o resto da população blogosférica, é só que a maior parte tem esta idade), estaremos na casa dos 30, é um big deal!  Bem, um minuto para nos dar um mini ataque cardíaco coletivo agora. 

Dramatismos à parte (porque se tiverem no 20, 21, 22, a coisa está tranquila; se tiverem 25 para cima, bem, metam já a quinta mudança heheheh), passemos a outros dramatismos (porque eu sou assim, gosto de dar significado às datas). 

2020 antes de mais nada, marca o fim da nossa infância. Sim, leram bem, para mim não marca apenas o fim da nossa adolescência, que decorreu por todo os 2010s, marca todo um percurso de crescimento que começou lá para trás, em 2000. Na minha cabeça, estas duas décadas é como se fossem a mesma, com todas as novidades que trouxe: desde os desenhos animados que se tornaram grandes clássicos, os Morangos com Açúcar (uma série que nos fez pensar que o Secundário era muito mais espetacular do realmente era e muito cringe, se tentarmos rever nos dias de hoje) músicas virais como Crazy Frog (quem se lembra? Já não se fazem músicas malucas como esta...), o passar de telemóveis tijolo para smartphones (e aqueles telemóveis que abriam e fechavam, e davam para desligar dramaticamente?), a novidade que foram as redes sociais (o Hi5 foi a primeira, todos os adolescentes tinham uma conta e faziam as típicas piadas "Hi5! Ups, a Internet foi abaixo")... Ah, bons tempos!


(Foto embaraçosa minha do início da década de 2010s, nos meus 13 aninhos. Digo embaraçosa porque, primeiro, sou tola por partilhar fotos antigas na net e, segundo, e aqueles dentinhos que ainda não tinha levado aparelho em cima?)

Porém, aquilo que me impressionou mais era o quão lento o tempo passava. Os dias pareciam infinitos, e parece que, à medida que nos fomos aproximando de 2019, começou tudo a ganhar uma velocidade alucinante. Sim, talvez tenha a ver com o facto de, na altura, sermos crianças (e toda aquela lógica de que, na infância, o tempo passa muito mais devagar), mas acredito também que o facto de vivermos numa era digital, em que todos querem tudo para ontem, tem influência nisso.


(Em 2013, no evento Color Run em Braga)

Estou orgulhosa de toda o crescimento que fiz durante os 2010s. Acabei o Ensino Básico, lutei imenso para ter uma melhor autoestima (e orgulho-me de dizer que ultrapassei a maior parte das inseguranças dessa altura), comecei o Ensino Secundário, criei o "Life of Cherry", fiz a minha primeira viagem internacional (a Londres), terminei o Secundário e entrei no curso que queria (na primeira opção!). Fui para a praxe, tive um grupo maravilhoso de amigas, conheci pessoas incríveis, conheci o meu  namorado, aprendi imenso durante os estágios, cresci imenso com as histórias de vida dos meus pacientes, e entrei na reta final do meu curso. Isto é apenas uma amostra de tudo o que fiz em 10 anos, porque cresci e vivi mais do que alguma vez poderei ou conseguirei partilhar no blog. As fotografias e a felicidade que transmitem falam por si.


( a minha viagem a Londres, em fevereiro de 2015)


(O meu primeiro dia como caloira, em setembro de 2015)

2020 é, literalmente, o início da minha vida adulta. Já me considerava adulta há alguns anos (quer dizer, kind of, alguma vez nos vamos considerar verdadeiramente adultos?), mas agora é a sério. Começo o ano quase licenciada, com carta de condução e uma série de expetativas para os próximos anos. Falando em objetivos a curto prazo, pretendo começar a poupar para viajar, comprar um carro, sair de casa dos pais, envolver-me em projetos que até aqui não tinha tanto tempo para dedicar porque tinha que estudar... De resto, apesar das expetativas, vou deixar que a vida me surpreenda, como fez na década anterior.  É bom ter planos, mas o melhor mesmo é embarcar na onda dos novos anos 20, e ter fé que poderão ser tão loucos como os que começaram em 1920.


(em 2019, como finalista)

2020 é o ano do futuro e, mesmo que este futuro não envolve carros voadores nem robôs que façam tudo por nós, tenho a certeza que será na mesma emocionante.

(Fotos: à exceção da primeira, da minha autoria)

12.12.18

Vamos parar de ter vergonha dos livros de autoajuda


Admitir que lês livros de autoajuda é a mesma coisa que cometeres suicídio social (que momento tão "Mean Girls" eu vivi agora). As pessoas quase que têm um enfarte de cada vez que ouvem essa palavra.  É um dos géneros literários mais ridicularizados e, por um lado, dá para perceber porquê. Muitos livros de autoajuda prometem coisas irrealísticas ao seus leitores: riqueza, uma vida amorosa perfeita, fim de todos os problemas, um incentivo para mudar de cidade e virar hippie... Mas também existem muitos outros inspiradores, cheios de lições que nos incentivam a ser melhores, a sermos mais motivados, a lutarmos mais por aquilo que queremos. Contudo, esses são frequentemente ofuscados pelo típico estereótipo de livros de autoajuda.

Atualmente, este tipo de obras  tornaram-se ligeiramente mais mainstream  com o lançamento de livros que estão na linha que divide os livros biográficos e autoajuda, tornando-os mais aceitáveis aos olhos da sociedade. Livros como " #Girlboss", " Big Magic" ou " The Art of Not Giving a F*ck" estão a ganhar cada vez mais popularidade. Ainda assim, ler livros de autoajuda é algo que escondemos frequentemente, até encontramos alguém entusiástico como nós. Só aí é que ganhamos coragem para mostrar a nossa estante e partilhar a nossa paixão.

Eu adoro ler livros de autoajuda, e não tenho medo de admitir. Talvez se deva ao facto de eu ser uma pessoa muito fechada no que diz respeito a partilhar os meus problemas, e sinta necessidade de me virar para algo. Ou talvez porque simplesmente goste de os ler. E não tenho que justificar este gosto, da mesma maneira que não justifico porque gosto de romances ou thrillers. Muitas pessoas provavelmente admitiriam isso, se este género literário não tivesse tão má fama.

Porque é que os livros de autoajuda tem má fama? Porque assumimos que as pessoas que lêem este género não sabem tomar decisões por elas próprias e precisam que alguém lhes diga o que fazer e, quando não existe esse alguém, viram-se para os livros. Nem imaginam o quanto estão errados!

Os livros de autoajuda não são para nos dizer o que fazer (odeio os livros que são assim). Servem para nos dar umas luzes sobre aquilo que podemos ser ou que poderíamos ser se nos esforçássemos mais. Servem para nos inspirar com histórias de pessoas com jornadas semelhantes às nossas (ou com jornadas totalmente diferentes mas que, de alguma forma, acabam por se assemelhar à nossa em alguns pontos). Servem para retirarmos de lá umas quantas frases inspiradoras para escrevermos na nossa agenda e relembrarmo-nos sempre delas. Servem para nos fazer ver aquilo que ainda não tínhamos visto em nós próprios. São um bom complemento das opiniões daqueles que nos são próximos ou até mesmo de profissionais. 

Portanto, vamos parar de consumir livros de autoajuda em segredo. A ânsia de querer descobrir como ser um ser humano melhor é natural, e demasiado importante para ser abandonada por vergonha. Da próxima vez que foram a uma livraria, avancem sem medos para a estante da autoajuda. 

12.11.18

5 vídeos incríveis que vocês nunca irão ver

5 vídeos incríveis que vocês nunca irão ver

Às vezes, eu sou sugada para dentro do Youtube e, quando dou conta, já vi várias compilações aleatórias como " As publicidades mais esquisitas do mundo" ou "As 10 quedas mais catastróficas de sempre". Em minha defesa, eu não pesquiso isto deliberadamente, aparece-me nas recomendações e, sabem como é que é, a curiosidade leva a melhor.

Em várias destas sessões (normalmente noturnas, no sofá, quando não está a dar nada de jeito na televisão e eu não tenho nenhuma série ou livro para ler), dou por mim a imaginar compilações incríveis que gostaria de ver mas que, infelizmente, nunca irão acontecer, a não ser que isto, de facto, seja tudo um reality show, e Deus edite vídeos para me mostrar no pós-vida. 


1. x vezes em que tudo quase deu errado: Eu adoro ver vídeos de pessoas bastante sortudas que, por um milagre, se safam de uma grande desgraça. Tipo, quando uma pessoa quase que é atropelada ou uma árvore quase cai em cima de alguém (não sei porque é que faço isto a mim própria, dá-me uma aflição ver isto, mas vejo na mesma). Queria ver como é que seria uma versão minha, com as desgraças que quase me aconteceram. Desastrada como sou, seriam muitas, acreditem! Seria ainda melhor com aquelas que eu não me apercebi, como estar quase para ser assaltada mas ir para outro sítio a tempo ou acidentes dos quais me safei. Eu iria ficar pasmada!

2. Top de momentos cómicos do meu quotidiano: Acontece-me cada coisa e tenho cada pessoa cómica na minha vida que só mesmo vendo. Há situações tão cómicas que, se fossem gravadas e publicadas no Youtube, me davam um monte de gostos e subscritores. 

3. Gente a falar bem de mim: Nem sempre temos oportunidade de ouvir elogios sobre nós, seja por timidez, vergonha, falta de oportunidade.... A verdade é que não recebemos elogios na mesma proporção em que ouvimos coisas más sobre nós. Este era um vídeo que todos nós precisávamos de assistir, para melhorar a nossa autoestima, para saber o que as pessoas realmente pensam de nós e para nos valorizarmos mais. Seria mesmo um mimo! Os professores a falarem bem de nós na reunião dos professores, a nossa mãe a elogiar-nos exageradamente às amigas, os nossos ex-colegas de trabalho a falarem  do quão bom éramos, as pessoas que realmente gostaram das nossas sugestões literárias/cinematográficas.... Ah, seria tão bom, talvez fosse o meu vídeo  favorito.

4. Tinha um conhecido mesmo ali: No 7º ano, entrou para a minha turma uma rapariga  que antes andava numa escola perto de minha casa, e que me disse que se lembrava de me ver todos os dias. Fiquei a pensar nas vezes em que passei por ela e não a vi porque, naturalmente, não a conhecia. O mundo não é tão grande como nós imaginamos que é e, lá bem no fundo, todos nós nos conhecemos mas nunca memorizamos. Era mesmo engraçado ver um vídeo que me mostrasse que já dividi espaços e já me cruzei com com pessoas que, na época, não conhecia, mas que agora conheço. Ver como era a vida deles antes de me conhecerem, quais eram as suas rotinas, se mudaram depois de me conhecer... Quão louco é pensar que, provavelmente, nós já passámos mil vezes por várias pessoas que só no futuro viemos a conhecer? Estávamos tão perto!

5. Retrospetiva dos anos: É assim, tecnicamente esta compilação não é assim tão impossível, mas se considerarmos que eu não sou uma vlogger, não sei editar vídeos e também não ando por aí a gravar tudo, bem que podemos incluí-lo nesta lista. Eu gostava de chegar ao final do ano, e ter ali uma compilação de todos os momentos que vivi, tipo aquilo que o Facebook faz com as nossas fotos, porém bem mais detalhadamente. 


Fico aqui a torcer para que Deus saiba mesmo editar vídeos e eu possa ver isto tudo quando morrer.

E vocês? Que vídeo gostariam de ver?

29.8.18

Podemos apaixonarmo-nos por olhares?

 Podemos apaixonarmo-nos por olhares?

Fiquei  obcecada pelo livro "180 Seconds" (li por sugestão da Sofia, obrigada. Leiam-no também já agora!) a partir de uma das primeiras cenas: duas pessoas completamente desconhecidas mantêm contacto visual durante 3 minutos e ficam atraídas uma pela outra de uma forma louca. É algo fascinante, no mínimo. 

Manter contacto visual com uma pessoa é uma atitude inesperadamente muito íntima. Todos os dias cruzamo-nos com várias pessoas, temos que interagir com muitas delas, algumas vezes voluntariamente e outras vezes por obrigação, o que exige que tenhamos algum contacto visual com elas, pelo menos durante alguns segundos. Muitas vezes, até evitamos olhar diretamente para elas. Se pensarmos bem, são poucas as pessoas a quem concedemos o privilégio de o fazer por mais de que meros segundos. A não ser que a situação o exija (como, por exemplo, uma entrevista de emprego), evitamos ao máximo fazê-lo. E mesmo nesses casos, costumamos olhar diretamente, desviar o olhar, e voltar a olhar, como que a fazer uma pausa para evitar que a relação visual fuja dos limites.

Isto acontece porque partilhar um olhar com alguém pode ser muito íntimo e, por vezes, demasiado intenso. Pode quebrar barreiras que nos esforçamos tanto por construir,  pode revelar verdades que nos esforçamos tanto por esconder, pode revelar as nossas verdadeiras intenções apesar de as nossas palavras estarem a apontar o contrário. Mais aterrorizante que tudo, pode ameaçar revelar a nossa essência por detrás de todas as máscaras que usamos diariamente. Já se perguntaram porque é que, quando queremos saber se alguém nos está dizer a verdade, exigimos "olha-me nos olhos"? É esta a razão.

Eu não acredito em amor à primeira vista, mas acredito em atração à primeira vista. E, apesar de não acreditar que nos podemos apaixonar  por alguém em apenas meros segundos, acredito que podemos apaixonarmo-nos por olhares. Não só de pessoas com quem ambicionamos ter relações amorosas, mas também com pessoas com quem desejamos desenvolver uma amizade por sentirmos tanta empatia nos seus olhares. 

Eu apaixono-me por olhares. Por olhares que dizem "não sei nada sobre ti, mas sei que vamos ser grandes amigos". Por olhares que gritam "quero conhecer-te melhor". Por olhares que compreendem, que dizem "eu também". Por olhares que me dão confiança quando não a sinto. Por olhares que parecem um porto seguro e que me fazem desejar afundar-me neles para nunca deixar de me sentir assim tão feliz. 

Dizem que os olhos são as janelas da alma. Também são portas. Quando nós passamos por elas, entramos na casa da outra pessoa. É-nos permitido entrar em algumas  divisões,  que vamos explorando e através delas tentando absorver o máximo de informação que conseguimos acerca da pessoa. E, dependendo do quão confortável o dono da  casa se sente connosco, vai destrancando outras divisões e vamos ganhando acesso a armários, gavetas e todas as coisas que normalmente estão bem escondidas dos outros. O acesso livre ao mundo do outro ganha-se através de confiança. Quando atingimos um patamar alto de confiança, ganhamos livre acesso para entrar e sair sempre quisermos. Às vezes este processo demora meses ou talvez anos. Outra vezes, demora apenas segundos.  É por isso que os olhares são tão apaixonantes. 

17.8.18

As férias mais relaxantes que podemos ter são ir para lado nenhum


Já alguma vez pensaram que, após umas férias, precisavam de outras? Por mais estranho que pareça, ter férias pode ser muito cansativo. Bem, nem todas. Existem dois tipos de férias: aquelas que são planeadas para descansar, que geralmente envolvem passear por sítios conhecidos sem muitas expetativas ou ficar em casa estendidos no sofá, e aquelas que exigem que estejamos no nosso melhor mood para aproveitar as experiências únicas que temos à nossa frente. As últimas conseguem ser as mais esgotantes e as melhores simultaneamente. 

Viajar, é frequentemente, um exercício intenso que começa desde que começamos a planear tudo com meses de antecedência, até ao momento em que finalmente estamos lá e aí temos  que lidar com uma cultura completamente diferente, uma língua que se calhar não dominamos, preços muitas vezes exageradamente altos, mapas confusos e a expetativa de ir ao maior número de atrações turísticas possíveis. Pode ser uma aventura muito divertida, porém é tudo menos relaxante. 

As únicas férias que não requerem gastar nenhuma energia são aquelas em que ficamos em casa. São aquelas em que andamos simplesmente a passear lentamente pela nossa vizinhança, a comer bolos na nossa pastelaria favorita, a fazer um piquenique num parque ou a visitar exposições locais que nunca temos oportunidade de ver. São aquelas em que não fazemos absolutamente nada. Não existem regras nem horários. Afinal, não é chato quando até nas nossas férias temos horários para cumprir?

Uma vez, quando estava a ler o livro "Comer, Orar, Amar"  cruzei-me com o famoso conceito italiano: "Dolce Far Niente" que significa, passado a traduzir, "a doçura de não fazer nada". A nossa noção de férias gira sempre em torno de grandes planos que nos façam esquecer a nossa rotina habitual, mas talvez não seja essa a melhor estratégia para recarregarmos as nossas baterias. Talvez permanecer perto de casa- ou mesmo, dentro dela - nos deixe mais revigorados e nos permita cultivar uma apreciação mais profunda dos lugares onde estamos sempre, mas que não vemos porque estamos demasiado ocupados. 

Não estou a dizer para pararmos de viajar. Isso seria uma afirmação louca, sobretudo vindo de mim, uma pessoa que adora fazê-lo e que pretende colocar os pés no maior número de países que conseguir. Não consigo imaginar os meus verões refastelada ao sol, a passear os dias à espera do próximo snack ou da próxima ida à água. Por muito que goste disso, se os meus verões fossem sempre assim, eu sei que chegaria ao último dia arrependida de tudo aquilo que não fiz. Eu preciso de passear, de explorar novos locais, viver novas experiências, ir a museus, visitar monumentos, nem que isto tudo seja feito dentro do meu próprio país (porque também é maravilhoso viajar dentro).  Mas também preciso de ter tempo para recuperar de uma grande aventura, para pensar "wow, eu experienciei isto?", para rever as fotografias que tirei e recuperar as energias que gastei na viagem. E é por isso que me preocupa o facto de, quando trabalhar, só ter duas semanas de férias? Sei que vou querer usá-las para existir apenas mas, maluca como sou, também vou querer usar todos esses dias para viajar. Vou ter que encontrar um equilíbrio.

Tirar férias de férias é verídico (um "eu não te disse?" para todos aqueles que nos chamaram preguiçosos por esta teoria) e algo que necessário, para não voltarmos ao trabalho tão ou ainda mais cansados do que quando saímos. 

26.7.18

Onde estão os universitários nas histórias YA?

Onde estão os universitários nas histórias YA?

Ler YA como jovem adulta é uma experiência interessante. Se por um lado, reconheço as vantagens que existem em ler livros deste género da vida adulta, por outro lado sinto-me um bocado estranha ao ler histórias que se passam no Secundário, uma etapa que eu já passei.

Nos últimos tempos, tenho lido muitos romances adultos que se passam na Universidade e comecei a interrogar-me acerca do motivo pelo qual nenhum autor YA escreve sobre esta fase entre a adolescência e a vida adulta. Porque é que ninguém fala da fase estranha que é a nossa experiência universitária.?Porque não, não é só a adolescência que é uma fase estranha! Quando eu era criança, eu olhava para os jovens de 20 anos e pensava "Uau, eles já são tão adultos!". Mas agora que já atingi esta idade, eu não me sinto nada adulta. Eu sei, no fundo nunca nos vamos sentir adultos, mas sobretudo nesta idade. Já me sinto (muito) melhor na minha pele, sinto-me mais confiante, já vivi muitas experiências incríveis, tenho amigos dos quais me orgulho bastante e estou a começar agora a ver o mundo de outra forma. Mas ainda há muita coisa que não sei. Não sei quase nada de política, não percebo grande coisa de impostos nem de IRS, ainda estou a tentar definir aquilo que quero ser e a minha entrada para o mundo de trabalho... E tudo isto precisa de ser falado!

A adolescência consegue ser terrivelmente difícil. Não estou aqui a negar isso. Os adolescentes precisam de sentir que não estão sozinhos nesta fase de crescimento e de grandes mudanças nas suas vidas. A ficção YA é muito importante para eles e desempenha aqui um grande papel. No entanto, ninguém passa de adolescente para um adulto formado. Nem de perto! Assim, nós, jovens adultos, precisamos de livros que decorram na Universidade.

Ok, eu sei que, tecnicamente, este tipo de literatura destina-se para jovens entre os 12 e os 18 anos, e que as personagens universitárias pertencem aos livros de adultos. Porém, a realidade é que a ficção adulta não explora as personagens universitárias da forma mais ideal. Estes aparecem, frequentemente, em livros cujo foco principal é o romance e/ou sexo. Não é que seja necessariamente mau, porque isso também faz parte desta idade mas, nós, leitores, também gostaríamos de ler livros que explorassem outras coisas que também fazem parte desta fase.

"Fangirl" foi o único livro YA que li cujas personagens eram universitárias. É dos poucas histórias que retratam a grande mudança que é a transição do Secundário para a Universidade e todas as consequências que resultam desta, como perder o contacto com alguns amigos, ficar longe da família, ser introvertido e ter que estar num meio grande... É um dos meus livros favoritos por esta razão, por falar de uma fase que estou a viver. 

Eu gostava de ver mais livros assim, que explorassem os altos e baixos da vida dos jovens nos seus 20 e tal anos. Quando eu estava a viver fases difíceis como adolescente, eu encontrava sempre alguma personagem na ficção a passar por algo semelhante, com que me podia identificar e com quem podia aprender. Eu ainda encontro isso nos livros YA. Algumas mensagens que estes passam ainda se aplicam à minha vida, quer seja por serem universais ou por serem mensagens que eu não entendia quando era mais nova e só com uma idade mais avançada poderia entender. Porém, existem experiências específicas que só vivemos na universidade, e eu gostava que a ficção retratasse mais essas experiências, dando-nos mensagens próprias para as mesmas. 

Não acredito que precisamos, necessariamente, de criar um novo género literário para os univeristários. Muitos educadores defendem que os adolescentes não se irão identificar com as personagens se forem muito mais velhas do que estas. Eu não acho que isso seja necessariamente verdade. Sim, não devemos meter personagens demasiado "velhas" na ficção YA, mas também acho que seria interessante incluir personagens universitárias, para os jovens poderem ver a próxima etapa que os espera e para nós, universitários, nos podermos identificar mais com as histórias. 

Gostava de, no futuro, ver livros que não resumissem a vida de um jovem adulto a romance ou como uma fase onde quase nada de suficientemente interessante para ser representado na ficção acontece. Quero ver mais livros que mostrem que não se entra de repente na vida adulta, que é algo que acontece por fases. A vida não acaba depois do Secundário, escritores, ok?

23.7.18

Medo

Medo

O medo é a sensação mais familiar que eu conheço. Todos conhecemos esta sensação mas, acreditem, eu sou capaz de a conhecer ainda melhor que muitos. A sério, a primeira vez que chorei é capaz de não ter sido por estar a respirar pela primeira vez, mas por querer ter medo do mundo exterior e querer desesperadamente voltar para o útero da minha mãe.

Medo de não saber o que dizer. Medo de ser rejeitada. Medo de não ser boa o suficiente.  Medo de não aprender. Medo de falhar. Medo do embaraço (tanto ao ponto de não suportar ver filmes com personagens que acabam sempre em situações embaraçosas). Muito, muito medo. Durante muito tempo, todas as decisões que tomei, relacionamentos e experiências foram controladas pelo medo. Até se tornar cansativo. 

Em muitas situações da minha vida eu tinha medo. Porque é que eu tinha todos estes medos eu não sabia. Às vezes, pareciam ilógicos e completamente aleatórios. Mas quando eu comecei a refletir melhor nesta questão, reparei que tinham algo em comum: a maior parte dos meus receios eram baseados no medo do desconhecido. E se há coisa que o medo odeia é o incerto. Ele aparece cada vez que entramos por caminhos desconhecidos.  O medo é como aquelas mães hipervigilantes que vão atrás do filho cada vez que este está prestes a correr algum risco, e que fará de tudo para o proteger.

A incerteza é  paralisante. Não podemos fazer planos. Não nos conseguimos preparar a 100%. Não conseguimos prever aquilo que vai acontecer. Uma vida sem riscos é uma vida mais segura, sem esta sensação aterrorizadora. Mas também é uma vida mais estúpida, sem aventura, sem amor e sem liberdade. Não é uma vida que eu esteja disposta a aceitar.

Tentei todo o tipo de estratégias para ultrapassar o medo.  Li 1822929 artigos sobre "Como ultrapassar os teus medos",  fingi que não o tinha, escondi-o no fundo das gavetas, tentei lutar contra ele, mas nunca nada resultou. Parecia que ele voltava sempre, mais forte do que antes. 

Há uma cena num filme da saga "Harry Potter" que é uma metáfora perfeitamente do meu medo. Nessa cena, o Ron, o Harry e a Hermione são apanhados por uma espécie de trepadeiras que se prendem aos seus corpos. O Harry e a Hermione depressa se libertam, mas o Ron entra em pânico e, quanto mais luta contra as trepadeiras, mais estas o prendem. Só quando ele deixa de lutar é que estas o libertam. A minha relação com o medo é assim. Só quando eu deixei de lutar contra o medo e o aceitei é que este me deixou de paralisar tanto.

Eu nunca consegui ultrapassar o meu medo porque este não pode ser ultrapassado. O meu medo nunca vai desaparecer porque ele é necessário. É o instinto de sobrevivência mais básico que eu tenho. Sem ele, eu viveria uma vida estupidamente curta. 

Nas primeiras civilizações, o medo era a chave para a sobrevivência. Com apenas algumas ferramentas básicas para se protegerem, os seres humanos recorriam aos seus instintos para detetarem uma situação de risco. Por outras palavras, recorriam ao famoso mecanismo "lutar ou fugir", que era desencadeado pelo medo, que produzia a adrenalina necessária para eles lutarem ou fugirem do perigo. As suas emoções e ações estavam bastante alinhadas naquele momento. Todavia, algo deve ter corrido mal no meio da evolução, porque agora todos nós vemos o medo como uma sensação negativa que nos impede de ser bem sucedidos. Basicamente, como um inimigo. E se o víssemos antes como um amigo?

É esta a postura que eu agora tento adotar em relação ao medo. Encará-lo como um amigo. Não como um melhor amigo, porque não lhe quero dar essa confiança, para não acabar por controlar todas  as minhas decisões como já fez demasiadas vezes. Apenas como alguém que aparece (mesmo sem ser bem vindo) para me proteger e ajudar. Alguém que não quer fazer nada de mais a não ser oferecer-me informação relevante, conselhos ou estímulos para estar mais focada. Desta forma, o medo parece menos paralisante e pode revelar ter a habilidade de me proteger, guiar e ajudar a seguir em frente.  

Não é uma relação fácil. O medo ainda aparece nos momentos mais inesperados, e ainda me deixa atrapalhada. Mas, como todos os relacionamentos, tem que ser trabalhado todos os dias. Principalmente porque, quer eu queira quer não, eu e o medo vamos caminhar lado a lado para o resto da vida, portanto é bom que nos entendamos. 


( Publicação inserida no Desafio 1+3)

19.7.18

A blogosfera não vai morrer, a não ser que vocês deixem


Nos últimos meses, têm-se discutido muito por aqui se a blogosfera está morta ou se está a morrer. Desenganem-se se pensam que isto é um tópico novo, porque não é, já foi discutido muitas vezes ao longo dos anos. A blogosfera já passou por muitas fases, e este é o tópico que costumamos discutir quando estamos numa fase má. 

No entanto, reconheço que estamos a passar por uma fase mais difícil do que todas aquelas que já passamos. Pela primeira vez na vida, estamos a ser ultrapassados não apenas por uma plataforma, mas por várias. Estamos a ser ultrapassados pelo Instagram, que oferece gratificação imediata em formas de "gostos" a cada foto. Estamos a ser ultrapassados pelo Youtube, cujos vídeos dão muito menos trabalho a ver do que ler sobre um mesmo assunto. Estamos a ser ultrapassados pelo Twitter, que permite partilhar ideias e fazer debates sem  termos que escrever testamentos. Estamos a perder muitos leitores para todas estas plataformas. Pior que tudo, estamos a perder bloggers. 

Quando comecei a ler  esta publicação da Inês, ao início, fiquei completamente destroçada. Será que a blogosfera está mesmo a morrer?  Porém, à medida que fui lendo (e pensando no amor que a Inês tem pela blogosfera), percebi que a minha resposta a esta pergunta é diferente da da  Inês: não a blogosfera não vai morrer, a não ser que nós deixemos.  Identifico-me com muitas das coisas que a Inês disse (e aconselho-vos a ler a publicação, porque está uma reflexão muito boa e sincera), mas não vejo a apoptose blogosférica como algo iminente. 

A blogosfera não está a morrer. Sim, temos outras plataformas que estão a ofuscar a nossa. Sim, definitivamente já não estamos na moda. Mas ainda não estamos a entrar em vias de extinção. Estamos sim a passar por uma fase de mudança e, como todas as fases de mudança na blogosfera, estas custam. As visualizações caem, os comentários são escassos e a desmotivação, por vezes, ataca. Mas tudo isto faz parte de um processo de adaptação, em que estamos a avaliar aquilo que temos que fazer para fazer com que a nossa comunidade sobreviva nas condições atuais. Já não podemos publicar apenas os nossos pensamentos random do quotidiano, para isso temos o Twitter. Já não podemos fazer uma publicação só com fotos, para isso temos o Instagram. Já não podemos criar publicações para "encher chouriços", porque as pessoas já não se vão dar ao trabalho de ler tudo o que publicamos. 

Como em todos os processos de adaptação, há quem não sobreviva. É como na natureza, há uma seleção natural. Existem blogs que estão a desaparecer, porque não conseguem adequar-se às condições atuais. Acabam por desistir porque as coisas "já não são como antigamente", porque se recusam a mudar e desprezam todos aqueles que evoluem. Outros blogs desaparecem porque simplesmente não pertencem aqui.  Quem está na blogosfera por dinheiro descobre agora que existem plataformas mais rentáveis. Quem não gosta realmente de escrever e só o fazia porque queria ter uma voz na Internet, vê agora que tem outras formas de comunicar. Esta seleção natural é assustadora, porque deixa muitos blogs pelo caminho. Apesar disso, esta não está a aniquilar a blogosfera. Sabem o que é que está a fazer? A dar mais espaço para os bloggers que realmente adoram isto.

Portanto, a vocês que já estão com bandeiras brancas e já estão a fazer as malas: a blogosfera não está a morrer, porque nós não vamos deixar. Nós não vamos a lado nenhum, e ai de quem tente obrigar-nos a desistir! Se as outras plataformas nos estão a tentar ofuscar, nós vamos começar a inovar e a  criar coisas que estas não podem criar. Vamos criar histórias que as fotos não podem contar. Vamos partilhar pensamentos e ideias que não podem ser encolhidas num tweet. Vamos criar conteúdo tão cativante que faça com que as pessoas larguem a preguiça e leiam o raio do texto, mesmo que este tenha mais que um parágrafo. 

A blogosfera não vai a lado nenhum. Agora temos é mais plataformas por onde escolher. A nossa função é fazer com que esta continue relevante e que continue a cativar pessoas que estão interessadas por esta. Porque, acreditem, existirão sempre pessoas interessadas em ler. Enquanto não criarem um plataforma melhor para a escrita, a blogosfera é a nossa casa. Uma casa que nos irá receber de braços a abertos todos aqueles que-como eu e a Inês- nos exprimimos muito melhor a escrever do que em vídeo ou do que de qualquer outra forma e que, mesmo tendo a capacidade de comunicar com outras plataformas, escolhemos esta, porque a nossa paixão pela escrita é mais forte. Uma casa que, acima de tudo, não irá fechar portas porque fomos nós que a criámos e fazemos parte dela. Enquanto tivermos isto em mente, a blogosfera estará bem viva. 

14.7.18

Troca de papéis: Quando o pai fica em casa e a mãe vai trabalhar

Troca de papéis: Quando o pai fica em casa e a mãe vai trabalhar

(Atenção: Esta publicação contém spoilers. Se não viram o filme "Os Incríveis 2,  não leiam esta publicação.)

Antes de mais, deixem-me falar do quão feliz eu estou por ver a sequela do  filme "Os Incríveis ,  14 anos depois. Awwww! Quando fui, finalmente, vê-lo ao cinema, senti-me a criança mais feliz do mundo. A minha infância está finalmente completa! Foi tão bom como o original.

Acho que estou a falar por todos os fãs quando digo que o enredo do segundo filme nos apanhou desprevenidos, mas pela positiva. Na tão aguardada sequela deparamo-nos com o clássico drama do balanço entre a vida familiar e o trabalho, drama esse a que, pelos vistos, nem os super-heróis escapam. Mas quando oferecem uma oportunidade à Mulher Elástica de lutar pela legalização dos heróis, o Bob vê-se confrontado com uma tarefa que exigirá igualmente muito de si: ficar em casa a tomar conta dos seus filhos. Ao início, ele fica tão chocado que até diz "Porque é que não me escolheram antes a mim?". Ficou tão revoltado que só faltava mesmo dizer "O meu nome é praticamente o título do filme!"

"Os Incríveis 2" captaram de forma bastante realística a grande aventura que pode ser a parentalidade.  Porque é mesmo uma grande aventura. O Sr. Incrível pode não ter andado a lutar contra vilões e a usar a sua força desta vez, mas viu-se numa missão igualmente heróica. A Edna até chega a dizê-lo, num momento do filme: "Se bem feito, ter filhos é um ato heróico". À medida que a história foi progredindo, ele revela-se ser um grande pai, que consegue cumprir o papel que, tradicionalmente, é desempenhado por uma mãe. Foi bastante refrescante ver que não pegaram no típico estereótipo do pai que é um desastre até a mãe voltar, e que retrataram a verdadeira jornada de um pai.

Apesar de a inversão dos papéis se estar a tornar cada vez mais aceite, não se fala muito sobre os pais que optam por ficar em casa para tomar conta dos seus filhos.Não conheço nenhum homem assim. Poderia dizer que é por não existir nenhum em Portugal, todos sabemos que isso não é verdade. Muito provavelmente, ainda por aí escondidos, a desempenhar as suas tarefas discretamente, e andarão por aí muitos tantos outros que estariam desejosos por desempenhar esse papel (e, quem sabe, até se sentiriam mais felizes do que num emprego que, para eles, é aborrecido), mas não o fazem por medo de críticas. 

Em pleno século XXI, ainda estamos tão habituados aos papéis tradicionais na família (mãe que fica em casa com os filhos, o pai que trabalha e chega tarde a casa...), que ainda torcemos o nariz se algum homem nos diz que prefere ficar em casa a cuidar dos filhos. Portanto, acho incrível que tenham feito um filme assim, sobretudo um filme de super-heróis dirigido a crianças (ou a adultos, eu nem sei, eu só vi adultos na sala de cinema). Os media podem afetar significativamente a forma como pensamos, e colocar um homem a cuidar dos filhos em casa num filme de animação pode mudar significativamente a forma como as gerações mais jovens vêem as dinâmicas familiares. 

Sabem é o que é mais incrível do que salvar o mundo? Educar crianças.  Muito amor para todos os pais e mães que aceitaram esta missão.

( Reflexão inserida no projeto " Movie 36", criado pela Lyne do blog "Imperium", em parceria com a Sofia do blog " A Sofia World" .  Participantes: Inês Vivas, " Vivus" ;  Vanessa Moreira, " Make It Flower";  Joana Almeida, " Twice Joaninha" ; Joana Sousa, " Jiji"  ; Alice Ramires, " Senta-te e Respira" ; Sónia Pinto, "By The Library" ;  Francisca Gonçalves, " Francisca"  ;  Inês Pinto, " Wallflower" ;  Carina Tomaz, " Discolored Winter";  Sofia Ferreira, " Por onde anda a Sofia?";  Sandra, " Brownie Abroad";  Abby, " Simplicity"; Sofia, " Ensaio sobre o Desassossego" )

12.6.18

13 Qualidades


Quando descobri qual era o segundo tema do Desafio 1+3, entrei em pânico. Considero-me uma pessoa com autoestima, sinto-me bem na minha própria pele, mas não estou habituada a refletir desta maneira sobre mim própria. Acho que, no fundo, ninguém está. É muito mais fácil pensar nos nossos defeitos e naquilo que podíamos melhorar do que pensar nas nossas qualidades. Foi assustador constatar que mais depressa escrevia uma lista com 13 defeitos do que com 13 qualidades.

Inicialmente, ia pedir ajuda aos meus familiares e amigos. Mas embora isso fosse um bom exercício para descobrir aquilo que mais admiram em mim, decidi que devia abraçar este tema sozinha e descobrir por mim própria aquilo que há de mais admirável em mim. Acabei de escrever esta publicação com um sentimento ainda maior de auto-valorização e a certeza de que todos temos tesouros escondidos dentro de nós.


1. Sou carinhosa: Adoro contacto físico, abraços, beijinhos e, sempre que posso, gosto de mimar as minhas pessoas. Não sou o género de carinhosa que abraça um desconhecido na rua, a minha timidez inicial faz com que eu hesite em fazer demonstrações de carinho  mas, quando estou mesmo muito à vontade com as pessoas, essa hesitação desaparece.

2. Tenho um sorriso contagiante: Isto é capaz de ser considerado um bocado batota, porque muitas pessoas já elogiaram tanto a forma como eu sorrio mas foi isso  que fez com que, eventualmente, eu me apaixonasse por esta minha característica (ok, isto soou um bocado egocêntrico, mas eu prometo que não sou assim). Agora, o meu sorriso é uma das coisas que mais gosto em mim. Gosto dele mesmo quando, de forma distraída, mostro um pouco das minhas gengivas ao rir-me. Talvez seja por isto que, inconscientemente, esteja a sorrir em (quase) todas as fotos que tenho.

3. Tenho um cabelo forte: Apesar de este ser muito rebelde e de nem sempre ficar como eu quero que fique é, sem dúvida, muito forte e saudável. Nunca tive queda de cabelo, não tenho necessidade de o lavar todos os dias e não fica danificado facilmente.

4. Sou boa ouvinte: Como introvertida, não sou muito de falar, sou mais de refletir e de analisar o mundo ao meu redor e de ouvir. Aprendemos muito sobre as pessoas quando as ouvimos. Estou a falar de "ouvir" no sentido de ouvir de verdade, não de ouvir apenas para saber o que responder. Esta é uma qualidade que eu tenho aprimorado ainda mais em Enfermagem e me tem tornado uma pessoa melhor.

5. Sou aventureira: Como sabem, adoro viajar. Não o faço tantas vezes como gostaria mas, quando o faço, aproveito ao máximo. Em viagens, deixo os meus medos e as minhas inseguranças em casa, e decido arriscar mais, fazer coisas que normalmente não faria e viver no momento (que é algo que, como preocupada crónica, não consigo fazer no meu quotidiano).

6. Sou persistente: Quando meto uma coisa na cabeça, não desisto dela. Por muito que seja difícil, por muito que as minhas inseguranças me tentem convencer que não sou capaz, eu luto por aquilo que quero até ao fim. Aos olhos dos outros, pode parecer que tive uma vida fácil (não diria fácil, mas que fui privilegiada em muitas coisas fui), porém a vida já me testou de maneiras que eu não considerava que eram possíveis e, ainda assim, tive força para continuar. As coisas boas acontecem por acaso, mas as melhores coisas acontecem porque lutamos por elas, e isso é algo que eu tenho bem presente na minha mente nos momentos em que a minha determinação parece falhar.

7. Sou curiosa: Não concordo nada com a frase " A curiosidade matou o gato". Para mim, a curiosidade não é um defeito. A busca incessante pelo conhecimento é aquilo que nos faz crescer e amadurecer. Atenção que, quando falo de curiosidade, não me estou a referir a coscuvilhices. Também gosto de saber mais sobre as pessoas de quem gosto, mas nunca ultrapasso os limites e respeito sempre a sua privacidade. Acima de tudo, a minha curiosidade volta-se mais para o mundo em geral do que propriamente a vida de cada um.

8. Sou extremamente pontual: Quando me apresentam um horário eu cumpro-o sempre, quer seja o horário da faculdade, de uma consulta ou apenas de um simples café com os amigos. Sou mesmo super pontual. Não gosto de causar transtornos nos horários de ninguém. Para mim, é simples, se se combinou uma hora é para cumprir.

9. Sou empática: Todos nós temos lutas internas que os outros nem imaginam que estamos a enfrentar e, no entanto, somos tão duros uns com os outros. O tempo tem-me ensinado a não julgar imediatamente todas as ações que não compreendo, porque pode existir todo um contexto por trás que eu desconheço. Não sou empática ao ponto de tomar a dor do outro como a minha (nem tal seria razoável, os problemas são sempre muito mais duros para quem os tem), dar apoio e ajudar ou, pelo menos, ser um pouco mais amável e tolerante. 

10. Sou humilde: Sei reconhecer os meus erros e defeitos. Não sou orgulhosa, e não tenho medo de pedir desculpa quando sei que falhei para com alguém.

11. Sou dedicada: Dou 100% de mim em tudo aquilo que me comprometo. Não gosto de fazer nada pela metade e isso aplica-se em todos os aspetos da minha vida, desde os mais pequenos detalhes até ao planos mais ambiciosos. Às vezes, isto resulta em frustração, por não conseguir dedicar-me a tudo em igual medida (somos seres com tempo e energia limitada) mas, a maior parte das vezes, considero isto uma grande qualidade.

12. Tenho muito autocontrolo: Não cedo facilmente aos meus caprichos e impulsos. Nunca caí em vícios nem em situações problemáticas.  Consigo estudar de forma produtiva sem recorrer a truques como tirar as tecnologias do quarto. Já cumpri dietas alimentares rigorosíssimas (infelizmente, por razões médicas). Curiosamente, não tenho este autocontrolo a nível emocional o que, por um lado é mau, porque faz com que a ansiedade me ataque mais mas, por outro lado é bom, porque torna as minhas relações mais espontâneas e reais.

13. Sou mente aberta: Nem sempre fui assim, mas a minha (curta) experiência de vida foi-me moldando para o ser. Quando nascemos, todos nós recebemos as crenças das pessoas mais próximas de nós. Algumas mais corretas que outras. Como somos demasiado novos, não temos essa capacidade de discernimento. Só quando crescemos é que começamos a refletir sobre a veracidade de algumas destas crenças e parece que o passo mais lógico seria abandoná-las. No entanto, abandoná-las é desconfortável, porque são tudo aquilo que nós conhecemos. É por isso que muitas pessoas ficam presas a tabus e a ideias pré-concebidas. Tenho aprendido que a melhor forma de viver em plenitude e aproveitar o melhor que o mundo nos tem para oferecer é ter uma mente aberta. Aceitar que os nossos valores e crenças estão em constante mudança e que, mesmo que não seja esse o caso, não faz mal em aceitar uma perspetiva diferente. Considero-me mente aberta em muitas coisas, e estou a trabalhar para sê-lo em outras tantas. 


( Publicação inserida no Desafio 1+3)

1.6.18

Com amor, Simon: Uma Lição sobre Empatia

Com amor, Simon: Uma Lição sobre Empatia

(Atenção: Esta publicação contém spoilers. Se não viram o filme " Com amor, Simon", por favor não leiam esta publicação. O filme ainda não estreou em Portugal, mas já podem vê-lo no Mr.Piracy)

Muitos dos problemas do mundo resolveriam-se se as pessoas tivessem mais empatia. Se tivessem em consideração o contexto de uma história em vez de se focarem simplesmente no conflito dessa história. Ninguém se identifica com o conflito, mas certamente que se identifica com as razões que levaram a esse conflito. O filme " Com amor, Simon" é uma grande lição nesse sentido.

Se repararem, o enredo desta história gira muito à volta do contexto. Tudo aquilo que o Simon queria era ser considerado pelo seu contexto e entender como se encaixaria no contexto de outras pessoas depois de assumir a sua sexualidade. Ele passou boa parte da sua vida a reprimir algo que influenciava a forma como ele se relacionava, ele era cauteloso e media bem as suas palavras e, mentalmente, completava as frases com aquilo que realmente gostaria de dizer. Existia todo um contexto por detrás da sexualidade do Simon que o Martin não compreendeu, assim como existia todo um contexto por detrás das ações do Martin que o Simon também ignorou (apesar de o Simon ter mais consciência do que o outro queria), e tudo isto impediu que eles tivessem empatia um com o outro.

O Simon disse algo no final que, para mim, resume todo o filme: " Primeiro, pensei que só era uma coisa gay. Mas depois percebi que, seja em que caso for, anunciarmos ao mundo quem somos é bastante aterrador. E se o mundo não gostar de nós?" . Todas as pessoas têm um conflito interno. Para o Simon, era o medo do que aconteceria se ele assumisse que era gay. Para outras pessoas, é o medo de que os outros não aceitem as suas paixões, como ser ator ou cantor. Para outros, é não achar que são bons o suficiente. Todos nós já escondemos algum segredo com medo de sermos rejeitados.

Fiquei muito feliz com a mensagem que este filme transmitiu. Senti muita empatia por esta história, porque, embora não entenda todo o processo mental que "sair do armário" deve exigir, entendo perfeitamente os conflitos de alguém que não vive quem é de verdade o tempo inteiro, que precisa de se esconder e de pensar bem no que diz com medo daquilo que as pessoas vão achar sobre si. Muitas das coisas que o Simon sentia, eu já senti, mas relacionado com coisas diferentes. 

Esta é a importância da empatia. De percebermos o contexto da pessoa, de tentar entender o que ela a luta pela qual ela está a passar e o que está a sentir, antes de a julgar sem conhecimento de causa, e de como a podemos ajudar. É isto que precisamos de colocar mais nas nossas relações. 


( Reflexão inserida no projeto " Movie 36", criado pela Lyne do blog "Imperium", em parceria com a Sofia do blog " A Sofia World" .  Participantes: Inês Vivas, " Vivus" ;  Vanessa Moreira, " Make It Flower";  Joana Almeida, " Twice Joaninha" ; Joana Sousa, " Jiji"  ; Alice Ramires, " Senta-te e Respira" ; Sónia Pinto, "By The Library" ;  Francisca Gonçalves, " Francisca"  ;  Inês Pinto, " Wallflower" ;  Carina Tomaz, " Discolored Winter";  Sofia Ferreira, " Por onde anda a Sofia?";  Sandra, " Brownie Abroad";  Abby, " Simplicity"; Sofia, " Ensaio sobre o Desassossego" )

25.5.18

Não somos extraordinários

 Não somos extraordinários

Estamos a caminhar para uma sociedade em que ser uma pessoa comum se está a tornar em algo negativo. Dizerem que temos uma vida ordinária começa a soar a insulto. Ter uma vida normal é a nova forma de fracasso. Mais valia sermos falhados, no verdadeiro sentido da palavra, porque assim não estaríamos a ser ignorados (embora não pelos melhores motivos). Todos nós queremos acreditar que estamos destinados a fazer algo incrível. A nossa cultura está a fazer com que acreditemos nisso. As celebridades dizem isso. Os políticos dizem isso. Os empreendedores dizem isso. Até os psicólogos nos fazem acreditar nisso. Porém, esta cena de "todos nós estamos destinados a ser espetaculares e a realizar grandes feitos" são apenas paninhos quentes que gostam de nos dar para nos consolar. 

Acreditamos frequentemente que, se não queremos ser os melhores em algo, estamos resignados com o mediano e que, portanto, nunca iremos atingir nada, porque estamos a aceitar a mediocridade. Este tipo de pensamento é perigoso, quase tóxico. Estamos a reduzir-nos a estatísticas. Validamos os nossos feitos por comparação. Estatisticamente falando, têm que existir pessoas medianas para podermos quantificar  as pessoas extraordinárias. Estamos, basicamente, a aceitar o facto de que, para sermos extraordinários,  mais metade da população mundial tem que fracassar. 

Na verdade, nem todos nós podemos ser extraordinários. Aliás, isso por si só até uma contradição. Se fôssemos todos extraordinários, ninguém seria extraordinário, porque ser extraordinário é ser fora do normal, e não o poderíamos sê-lo se ser excecional fosse o novo normal. Na verdade, ninguém é verdadeiramente extraordinário.

A maior parte de nós somos medianos na maior parte das coisas que fazemos. Mesmo que sejamos excecionais numa coisa, o mais provável é que sejamos medianos ou mesmo fracos em todas as outras áreas da nossa vida. É uma verdade crua da vida. Para sermos muito bons em algo, temos que lhe dedicar imenso tempo, o que significa que depois não teremos tanto tempo disponível para dedicar a outras coisas. Grandes génios como Einsten eram péssimos em manter relações com as pessoas que lhe estavam mais próximas, por exemplo. Somos seres com tempo e energia limitada. 

Não somos especiais. As nossas ações não são assim tão importantes quando avaliamos o mundo no seu todo. São apenas uma gota na imensidão que é um oceano. A nossa vida não vai ser tão espetacular como nos pintam, vai ser aborrecida a maior parte das vezes. Assim como nós. Vai existir sempre alguém que sabe mais do que nós, que tem algo que nós não temos, assim como nós sabemos coisas que outras pessoas não sabem e temos coisas que outras pessoas não têm. 

Ter uma vida ordinária não é um insulto, é aquilo que todos nós temos. Faz parte de ser humano. Ser humano não é querer ser melhor do que ninguém. É querer viver todas as experiências da vida em plenitude. As boas, as más e as neutras. Por isso, em vez de andarmos a correr atrás do extraordinário, comecemos antes a celebrar as nossas características únicas e a abraçar a magia que é estarmos vivos.

16.4.18

O poder de ser subestimado

 O poder de ser subestimado

Quando eu era mais nova, eu não fazia mal a um mosca. Eu era tão sossegada que as pessoas nem davam pela minha presença numa sala. Eu ficava sempre quietinha num cantinho, mantinha a minha cabeça baixa e apenas ouvia o que os outros tinham para dizer em vez de dar a minha própria opinião. Raramente falava aquilo que me ia na mente ou fazia algo que fosse fora da minha zona de conforto.

Em resultado disso, eu sempre passei a imagem que era uma pessoa fraca. Uma pessoa que facilmente podia ser pisada e ultrapassada à mínima oportunidade. Uma pessoa que, como não aparentava ter opinião, facilmente podia ser manipulada para ter aquilo que se pretendia. Uma pessoa que nunca fazia nada de extraordinário, apenas aquilo que era esperado dela.

Durante algum tempo sofri com isto, com o facto de estarem sempre a subestimar-me. Não é lá uma sensação muito boa estarmos a esforçarmo-nos em algo, a darmos tudo, e desvalorizarem-nos dessa forma.  Mas rapidamente percebi que existe um certo poder em ser subestimada, porque ninguém consegue prever aquilo que vais fazer até o fazeres. E ao não conseguirem prever aquilo que vais fazer, não te conseguem impedir de atingir aquilo que queres. Quando se apercebem e tentam impedir-te, tu já conseguiste.

Vou partilhar um segredo com vocês: eu adoro ser subestimada. Eu adoro expressão facial das pessoas quando digo ou faço algo que, supostamente, não faz parte da minha identidade ou personalidade. O meu eu interior salta de alegria quando isso acontece. Provar às pessoas que estão erradas dá-me muito prazer e, frequentemente, uso isso como motivação. Dizerem-me "não consegues fazer isso" é a melhor coisa que me podem fazer, porque eu aí não vou ficar descansada até o fazer.

Outra das vantagens de ser subestimada? Não sentir pressão para fazer algo porque ninguém espera que o façamos. Aqueles que são assumidamente bons vivem com a constante pressão de fazer justiça a esse papel. Sempre tive pena dos alunos intitulados "crânios" por causa disso. Quando tinham um deslize e tiravam uma nota mais fraca, toda a gente ficava desiludida com eles. É certo que isso raramente acontecia (por alguma razão misteriosa) mas, quando acontecia, a queda era maior. Quando és subestimado, isso não acontece. Ninguém está a controlar os teus objetivos, os teus progressos, nem está a conometrá-los. És livre para escolher as tuas próprias ambições, para progredires à tua velocidade, e para falhares sem te sentires tão humilhado (porque, como és uma pessoa "fraca", ninguém fica surpreendido com os teus insucessos). Só avanças para as luzes da ribalta quando finalmente alcanças aquilo que andaste a trabalhar durante tanto tempo.


Este é o poder de ser subestimado. É o poder de saber que, independentemente daquilo que as pessoas assumam, ao final do dia é apenas barulho. Por isso, em vez de procurarem constantemente a validação dos outros, encarem o que eles dizem como um elogio, atirem-se de cabeça àquilo que querem, e aproveitem a neblina serem subestimados vos confere para evoluírem ao vosso próprio ritmo. 

5.3.18

Reflexão Movie 36: Faz aquilo que queres e ai de quem o impeça!


Os fãs de "The Room" gostam deste filme por diversas razões: as frases que de tão terríveis se tornam tornaram icónicas, a insistência da Lisa a dizer que não gosta do Jonny, a história do cancro que só aparece por acaso uma vez para nunca mais ser falada,... Mas foi através do filme " Um Desastre de Artista" que compreendi aquilo que a produção de Tommy Wiseau realmente representava. Eu senti-me incrivelmente inspirada com a sua história. Se esquecermos todo o mistério que existe à volta dele, o seu sotaque terrível, o dinheiro que vem sabe-se lá de onde, a má atuação, os diálogos terríveis ou, pior ainda, o próprio guião, vemos um homem que tinha uma paixão implacável por algo e lutou por isso com uma vontade impassível. Um homem que queria fazer algo e ser conhecido por algo e que, quando lhe travaram o caminho, criou o seu próprio caminho. E há uma certa beleza nisso.

Quantas vezes desistimos de algo por sentirmos que não éramos bons o suficiente? Quantas vezes desistimos de algo por não conseguirmos ser os melhores nessa área e, portanto, mais valia nem o fazer? Quantas vezes desistimos de algo porque simplesmente nos disseram que não fomos feitos para aquilo? De quantos sonhos já desistimos por não correspondermos da sociedade?

Muitas vezes, deixamos que a sociedade crie limites para aquilo que podemos fazer e para aquilo que podemos ser. Deixamos que ela decida por nós o lugar onde pertencemos e aquilo que devemos fazer. Deixamos que seja ela a criar as regras e a moldar a nossa imaginação. Aceitamos, casbisbaixos e sem rispostar, que nos fechem portas e nos impeçam de seguir certos caminhos. 

Vivemos constantemente com a necessidade que as pessoas aprovem os nossos sonhos, e sentimos que não os podemos seguir se não formos considerados bons nisso. Somos, muitas vezes, o melhor amigo de Tommy Wiseau, Greg Sestelo, antes de o ter conhecido. Amedrontados, num palco, gagos, desesperadamente à espera de aprovação. 

Mas o Tommy Wiseay não era assim. Ele nunca teve receio de ser ele próprio mesmo quando, talvez, devesse. Não teve medo de atuar no meio de cafés, de ser rejeitado continuamente em castings, de fazer alta cena no meio de um restaurante nem de produzir o seu próprio filme. Mesmo quando o seu suposto drama foi alvo de grandes gargalhadas por parte de uma plateia inteira, Tommy aceitou com graciosidade a comédia que nunca era suposto o ser. Ele manteve o seu sonho vivo independentemente de tudo.

Se calhar devíamos ser mais como o Tommy Wiseau. Mesmo que não queiramos perseguir uma carreira de cinema, temos mais em comum com ele do que pensamos.  Todos nós já nos sentimos perdidos em algum momento das nossas vidas. Já nos sentimos rejeitados e excluídos de algo E talvez aquilo que precisemos não seja de mais oportunidades, mas sim de uma fé inabalável nas nossas paixões e de uma persistência quase a roçar na teimosia, para criarmos as nossas próprias oportunidades e dizer um " vai-te lixar" a quem nos tentar impedir.

( Post inserido no projeto " Movie 36", criado pela Lyne do blog "Imperium", em parceria com a Sofia do blog " A Sofia World" .  Participantes: Inês Vivas, " Vivus" ;  Vanessa Moreira, " Make It Flower";  Joana Almeida, " Twice Joaninha" ; Joana Sousa, " Jiji"  ; Alice Ramires, " Senta-te e Respira" ; Sónia Pinto, "By The Library" ;  Francisca Gonçalves, " Francisca"  ;  Inês Pinto, " Wallflower" ;  Carina Tomaz, " Discolored Winter";  Sofia Ferreira, " Por onde anda a Sofia?";  Sandra, " Brownie Abroad";  Abby, " Simplicity"; Sofia, " Ensaio sobre o Desassossego" )

22.2.18

Vamos parar de negar: todos nós temos preconceitos

 Vamos parar de negar: todos nós temos preconceitos

Numa sociedade ainda pouco inclusiva, há quem queira nadar contra a corrente e fingir ter toda uma tolerância em relação a tudo quando, na verdade, não tem. Dizem-se muito tolerantes em relação a tudo e a todos, contudo são os primeiros a torcer o nariz à mínima diferença que encontram. E ai de quem os chame de preconceituosos, que insulto!

A palavra "preconceito" tem, frequentemente, uma conotação demasiado negativa. Tanto que, atualmente, vivemos quase que aterrorizados, a medir bem cada comportamento nosso e cada palavra que usamos, para nos safarmos de receber o temível rótulo "preconceituoso".  As pessoas que são intituladas de preconceituosas são pintadas de uma forma muito feia, monstruosa até: são pessoas de mente fechada, de pensamento retrógrado, frias, pouco tolerantes e, pior de tudo, com atitudes discriminatórias.

Porém, o preconceito e a discriminação nem sempre andam de mãos dadas. E essa crença advém do facto de a maior parte de nós nem saber sequer o que esta palavra significa. Já pararam para pensar no verdadeiro significado da palavra? Basta dividi-la: é um pré-conceito. De acordo com o dicionário, é uma ideia preconcebida sobre algo ou alguém. Não significa necessariamente que estejamos a ser ignorantes,  precipitados ou que estejamos a discriminar. Apenas estamos a estabelecer um juízo de valor sobre algo ou alguém, sem conhecimento de causa. E acreditem, é algo que estamos a fazer a toda a hora. As primeiras impressões que temos quando conhecemos alguém, por exemplo, não são isso mesmo?  Um preconceito não é nada mais nem menos do que uma ideia preconcebida manifestada racionalmente pelo direito de nos exprimirmos livremente.

Durante o meu percurso académico, já me deparei com várias temáticas e realidades diferentes da minha, e fui desconstruíndo alguns mitos em que acreditava. Muitas vezes, fui confrontada pelo meu próprio consciente " Como pude achar isto daquilo? Será que estou a ser preconceituosa?". Demorei algum tempo a reconhecer humildemente que sim que, de facto, estava a ser preconceituosa, mas não da forma que pensava. Preconceituosa no sentido em que tinha uma ideia pré-estabelecida sobre algo, mas estava motivada a desmantelar essas ideias e formar novos conhecimentos. Mas nunca agi de forma discriminatória.

Vamos reconhecer isto de uma vez por todas: todos nós temos preconceitos. Uns mais que outros, mas todos temos. E isso não é necessariamente mau. A diferença entre sermos preconceituosos e discriminantes está naquilo que fazemos com os preconceitos que temos. Procuramos, de mente aberta, aprender mais sobre determinado assunto ou determinada pessoa/comunidade para, aos poucos, reformular as ideias que tínhamos? Ou partimos logo para a ação, sem nos preocuparmos com a nossa falta de informação e com as consequências que daí poderão advir, como ferir os sentimentos das outras pessoas? 

Quer queiramos ou não, ter preconceitos faz parte da natureza humana. Não podemos impedir isso. Aquilo que podemos impedir é que estes partam para atos discriminatórios porque esses sim, são desumanos e impedem-nos de viver de uma forma livre e feliz. 

10.2.18

O meu "eu" na Internet é mais perfeito que o meu " eu" real?

O meu "eu" na Internet é mais perfeito que o meu " eu" real?

Há uns tempos atrás, uma pessoa que anda na minha universidade disse algo que me calou completamente " Pareces ser tão extrovertida no blog, mas na vida real és tão caladinha..." . Já muitos amigos meus me disseram que, dado eu ser introvertida, não esperavam que me expusesse assim na Internet, mas dito daquela forma teve outro impacto. Longe já vão os tempos em que me preocupava com aquilo que pensavam de mim, mas esta pôs-me mesmo a pensar no assunto.

Quanto mais escrevo no blog, mais este contraste entre o meu " eu" online e o meu " eu" na realidade se faz sentir. O meu "eu" online é divertido, sociável e bastante extrovertido; o meu eu " real" é introvertido, tímido para quem não conhece e só se sente confortável quando já conhece as pessoas. O meu " eu" online preocupa-se mais com a estética do que com a funcionalidade; o meu " eu" real gosta mais do que é confortável e prático. O meu " eu" online é opinativo, fala muito, dá dicas e conselhos; o meu "eu" real diz coisas estranhas ou não sabe o que dizer, e muitas vezes fica calado quando deveria falar. O meu "eu" online sabe como fazer amigos (muito facilmente!); o meu " eu" real muitas vezes espera que sejam vocês a dar o primeiro passo (por favor?). O meu " eu" online sabe sempre o que fazer e tem a vida toda organizada, enquanto o meu "eu" real preferia correr para casa vestir o pijaminha ao primeiro sinal de insegurança ou ansiedade.

Uma coisa que também me dizem muitas vezes é que me expresso melhor a escrever do que a falar. E é mesmo verdade! Como blogger, tenho liberdade para escolher os temas que quero abordar no meu cantinho, e é apelativo poder falar sobre os temas por detrás de um ecrã, refletindo bem sobre o assunto e escolhendo cuidadosamente as palavras.

Agora que tenho o blog público, esta discrepância não se faz sentir tanto. Já não sinto que estou a viver uma vida dupla como me sentia quando me escondi atrás de uma imagem de Tumblr. Mas, nos dias em que estou mais ansiosa e a insegurança ataca, esta discrepância é aterrorizante. 

 Por vezes, sinto que a Cherry é um alter ego meu. Como se desejasse ser como uma celebridade que vejo na TV, só que essa celebridade é a pessoa que sou na Internet. Sou eu na mesma, está dentro de mim mas, por algum motivo que ainda desconheço, não a consigo passar para fora do ecrã. 

A Internet, a blogosfera e as redes sociais criam ilusões no que diz respeito à complexidade da personalidade humana. Na Internet tendemos sempre a partilhar apenas as porções mais polidas e mais bonitas da nossa personalidade, deixando de lado as porções mais cortantes, feias e mais escuras da nossa identidade que, muitas vezes, são completamente impróprias para consumo público.

Perdoar esta diferença é uma batalha interior que temos que enfrentar enquanto bloggers. Tentar apreciar e reconhecer que embora o nosso "eu" online seja um bocado diferente do offline, fazem parte da mesma pessoa, da mesma personalidade, da mesma vida. E tentar juntar o melhor dos dois mundos. Tentar aproveitar um pouco das vulnerabilidades e dos monstros feios que moram dentro de nós para criar empatia e ajudar outras pessoas que tenham os mesmos monstros que nós. Usar o nosso " eu" online para nos inspirar a sermos melhores e a nos aproximarmos um bocadinho mais desse "eu", a cada dia que passa.