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21.3.19

Parem de me dizer para largar o meu telemóvel

Parem de me dizer para largar o meu telemóvel

Está a tornar-se moda aqui na Internet aparecerem publicações ou vídeos de influenciadores digitais a dizerem que estavam a começar a ficar muito viciadas nos seus telemóveis e que decidiram largá-los. Tudo bem, posso viver com isso, cada um faz o que quer. O que não está bem aqui é dizerem-nos para fazer o mesmo. Está a criar-se uma onda de protestos contra os telemóveis, e sinto que já não é possível estar a navegar pelo smartphone em público sem levarmos logo com um uns quantos olhares inquisidores ou uns quantos " Já estás outra vez no telemóvel?" se as pessoas se sentirem familiarizadas connosco.

Esta cena do detox digital é tudo muito bonita mas não é lá muito prática. É benéfico e às vezes aconselhável fazê-lo durante uns dias de vez em quando mas, sejamos sinceros, quantos de nós conseguiríamos fazer isto a longo prazo? Quantos de nós hoje em dia conseguiria viver sem um telemóvel? Os detox digitais são como as dietas malucas: não comemos nada (ou só suminhos) durante uns tempos, na esperança de emagrecer, mas depois precisamos de o nosso fornecimento calórico habitual  para ter energia e voltamos aos velhos hábitos.  Por muito assustador que possa parecer, os telemóveis já se tornaram quase tão indispensáveis da nossa vida como a comida. Atualmente, são quase uma extensão do nosso corpo. Ninguém sai de casa sem um. Qualquer pessoa que tenha que sair diariamente de casa iria ter muitas dificuldades em gerir a sua vida sem um telemóvel. 

Já houve uma altura em que os telemóveis eram facilmente dispensáveis. O meu primeiro telemóvel era um Motorola rosa cuja maior qualidade era ter muito estilo (o rosa diz tudo) De resto, pouco mais fazia. Só dava para fazer chamadas, mandar sms (que eram limitadas, porque não tinha os tarifários de agora, que permitem sms grátis) e pouco mais. Conseguia facilmente passar o dia sem tocar no telemóvel, este ficava facilmente no fundo da minha mochila, a não ser que não tivesse mais nada que fazer e me pusesse a jogar um jogo (que não vinha da App Store nem da Play Store,ainda não existiam). Naquela altura, ter um telemóvel era um luxo, não uma necessidade. 

Agora, as coisas estão muito diferentes. Os nossos telemóveis tornaram-se tão sofisticados que se tornaram uma presença praticamente obrigatória no nosso quotidiano, armazenando toda a informação das nossas vidas e que precisamos de gerir (contactos, agenda, e-mails, informações de pagamento,...), além de terem muitas apps que são grandes recursos (apps de saúde,desporto,economias...).  Juntando as redes sociais e jogos à equação,  o resultado é o mundo nas nossas mãos. 

O meu telemóvel é a minha vida. Dizer que o meu telemóvel é a minha vida pode parecer algo que as pessoas que são viciadas em tecnologias dizem mas, no fundo, é a mais pura das verdades. Como estudante (e, um dia, profissional) o meu telemóvel permite-me consultar o meu horário da faculdade, responder a mails em movimento, consultar o saldo da minha conta bancária, adiantar aquela apresentação que ainda não tive tempo de fazer em casa... Como blogger, permite-me responder a comentários do meu blog, atualizar as redes sociais, editar fotos e manter-me a par do trabalho criativo das outras pessoas. Como pessoa, permite-me entreter-me, manter-me a par das notícias e manter o contacto com pessoas cujas circunstâncias não me permitem estar com elas pessoalmente. 

Os media focam-se tanto nos estragos que os smartphones podem causar na vida das pessoas (privação de sono, stress, ansiedade, isolamento...), e nunca falam desta liberdade e da flexibilidade que estas tecnologias modernas podem trazer-nos. Claro que temos que saber usá-los com moderação, porque aí sim, podem ser prejudiciais. Porém,  isso é como em tudo na vida. Tudo o que é em excesso faz mal. Mas se estes, no geral, mudaram a nossa vida para melhor, e não temos que sentir vergonha de reconhecer isso. Não, não temos que parar de usar os nossos telemóveis. 

9.3.19

Porque eu nunca desisto de um livro (mesmo que o odeie!)

Porque eu nunca desisto de um livro (mesmo que o odeie!)

Ao longo da minha vida, já li imensos livros, tantos que já perdi a conta (e é nestes momentos que me arrependo de não ter uma conta Goodreads organizada). Alguns marcaram-me bastante, enquanto que outros foram uma chatice e eu já nem me lembro deles. No entanto, independentemente daquilo que eu senti em relação aos mesmos, eu terminei-os sempre. Em toda a minha vida, só desisti de dois livros (e, se fosse agora, tinha-os acabado de ler).

Muitas pessoas questionam-me acerca disto. Porque raio haveria eu de perder tempo a ler algo que odeio, quando existem muitas outras narrativas interesssantes à espera de serem lidas? Às vezes, até eu me questiono. Mas não consigo deixar livros a meio, é mais forte do que eu. E estas são as razões pelas quais eu não o faço.


1. Eu fiz uma escolha consciente do livro: Eu, geralmente, não escolho livros que não me interessem. Posso arriscar ler um livro de um género diferente ao qual estou habituada, mas não vou pegar em algo que sei que, quase de certeza, vou odiar. Assim, ao escolher determinado livro significa que me interessei por algo, pelo enredo, pelo local onde o enredo se desenrola, pelas personagens, pelo género ou pelo autor. A partir do momento em que o escolho, comprometo-me a acabá-lo.

2. É muito difícil fazer uma review de um livro que não acabaste: Para não dizer impossível. É quase irresponsável falar sobre uma obra que não lemos até ao fim, e podemos estar até a induzir em erro os leitores. Se calhar, a história progrediu de forma diferente depois da página em que paramos de ler. Talvez as falhas que tenhamos detetado no enredo ou nas personagens notem-se menos mais à frente. Porventura, precisávamos de tempo para nos habituarmos ao estilo de escrita do autor . Ou talvez tenhamos perdido um grande plot twist. Portanto, como podemos dar uma opinião bem fundamentada acerca do livro se perdemos muitos destes fatores?

3. Posso ter-me precipitado: Quantas vezes já me aconteceu odiar as primeiras 50 páginas de um livro, mas depois adorar o resto? Já li imensos livros cuja qualidade só melhorava a meio da história, e só aí é que a minha vontade de ler aumentava. Houve livros em que eu odiei a primeira parte e adorei a segunda. O que teria acontecido se eu tivesse desistido no início? Poderia ter perdido uma boa história.

4. Eu não gosto de deixar coisas por acabar: Sou assim em todos os aspetos da minha vida, e as leituras não são exceção. Sou muito rápida a ler, mas se me está a custar a ler demoro mais ou menos um mês mas, ainda assim, acabo-o sempre.

5. Aprendo mais sobre escrita: Tenho o sonho de, um dia escrever um livro, mas para isso preciso de praticar. E a melhor forma de praticar que conheço (além de escrever, claro!) é ler livros de forma crítica. Desta forma, vou ganhando lentamente conhecimento e vendo os erros que quero evitar

6. Não quero filtrar os pontos de vista que recebo e a limitar os meus horizontes : Se nós só lermos livros que nós gostamos e com os quais concordamos estamos, inconscientemente, a auto censurar as opiniões e pontos de vista que recebemos. Isso é um pensamento assustador para mim. Ao desistir de livros estarei a pôr limites aos pontos de vista que aceito e estarei a pôr filtros que não deixarão passar informação que me deixa desconfortável, zangada ou revoltada, mas que também me faz crescer e ver o mundo de forma diferente.

7. Podes sempre retirar lições de todos os livros, mesmo dos que não gostas: Além da escrita, podemos retirar muitas coisas dos livros que gostamos menos ou que odiamos. Talvez um personagem interessante, descrições bem feitas e encantadoras, um contexto surreal ou uma citação que nos marcou (mesmo que o resto da prosa seja uma seca).


E vocês? Acabam todos os livros que lêem ou não se importam de os deixar a meio?

Lê também: Porque eu releio livros

6.3.19

Temos que começar a tratar as nossas amizades como relações amorosas


As pessoas tendem a pensar que amizade e relação são dois termos que significam coisas completamente distintas. Como sociedade, somos educados para pensar que estar numa relação amorosa com alguém significa que atingimos o patamar máximo de importância perante todas as outras relações. 

 Como alguém que passou toda a adolescência sem nunca ter tido um namorado, e só recentemente, aos 21 anos, começou a namorar, eu passei toda a minha vida a ver os meus amigos próximos como os verdadeiros amores da minha vida. Cada um deles tem uma complexa história de amor à qual me dedico, me entrego e à qual sou leal. São pessoas que, para mim, são grandes prioridades a seguir à minha família e com as quais me esforço para manter relações duradouras. 

Se pensarem bem, mesmo que não tenham experienciado a mesma ausência de vida amorosa que eu, irão constatar que as vossas amizades têm um impacto muito maior do que as vossas paixões. Afinal de contas, começaram a ter amigos muito antes de querer sequer um namorado ou uma namorada. Mesmo quando entram na faculdade, passam a maior parte do nosso tempo com os vossos amigos. Têm aulas com eles, passam os intervalos com eles, aproveitam as sextas feiras com eles e continuam a conviver com eles nas férias. Os vossos amigos são as pessoas com as quais tentam sempre manter o contacto.  Para todos os efeitos, é exatamente como ter várias caras-metade sem a intimidade física inerente.  Muitas vezes, eles sabem mais de vocês do que qualquer outra pessoa neste mundo, a vossa confiança neles é quase cega, e isto tudo sem haver nenhum sentimento romântico associado. No entanto, vocês consideram o relacionamento com o vosso namorado/a o vosso relacionamento principal, porque acham que é a única forma de se sentirem mesmo próximos de alguém. 

E  se têm impacto para o bem, também têm para o mal. Os amigos podem fazer-nos as mesmas coisas que os nossos parceiros fazem. Já li um bilião de artigos sobre namorados e namoradas fisicamente ou emocionalmente abusivas. Há tantos conselhos para lidar com um parceiro que nos mente, manipula ou maltrata. Mas ninguém fala sobre o facto de os nossos amigos poderem fazer-nos exatamente o mesmo. Como lidar com alguém que conhecemos há cinco anos e que descobrimos que nos mentiu esse tempo todo? E já agora, acabar um namoro pode ser uma confusão, mas já tentaram acabar com uma amizade? Não há nenhuma forma clara de fazer isso assertivamente. Vocês podem virar-se parceiro e dizer "as coisas não estão a resultar entre nós, é melhor acabarmos" ou outra frase cliché qualquer que as pessoas gostam de utilizar nestas situações, mas como é que fazem isso com amigos? Não é socialmente aceitável irem a um café com eles, sentarem-se e dizerem "eu sei que nos conhecemos há muito tempo, mas a nossa amizade já não corresponde às minhas expetativas, acho que é melhor pararmos por aqui". Como eu escrevi há uns anos atrás aqui, acabar com amizades também é algo real, e que precisa de ser mais abordado. As nossas amizades podem ser tão devastadoras para a nossa autoestima como os nossos relacionamentos amorosos. 

É por isso que temos que começar a tratar as nossas amizades com a mesma seriedade que tratamos as nossas relações amorosas, porque estas podem ser de igual forma complexas. Como podem tratar os vossos amigos como os vossos amores? Dediquem-lhes mais tempo. Mandem aquela mensagem no início do dia ou no final a perguntar se está tudo bem. Liguem-lhes mais vezes. Tenham dates (sim, autênticos dates, em sítios bonitos, com muitas gulosices e diversão). Surpreendam-os. Sejam honestos em relação àquilo que vos incomoda e que acham que está ou não a funcionar. Sejam leais. Cuidem um dos outros. Mostrem diariamente o quão gostam um dos outros, independentemente de estarem ou não solteiros. 

Nós temos tanto controlo com as pessoas que socializamos como com as pessoas com quem temos  um interesse romântico. Pensar em cada amizade como uma história de amor ajuda-nos a avaliar as suas necessidades e comportamentos. Isto pode ajudar-nos a descobrir amizades cujo prazo de validade já expirou ou a descobrir outras que dão sinais que estão aqui para ficar, e que merecem mais apreciação e afeto do que aquela que damos. 


8.2.19

Os primeiros sinais que revelam que eu não vou gostar de um livro


Com alguns livros, é amor à primeira vista: a capa é linda, as primeiras frases fazem com que o  teu coração comece a bater mais forte e entras numa montanha russa de emoções, que faz com que não queiras parar de ler até ao final. Mas com outros livros tu começas a ler e pensas  "eu e tu não nos vamos dar bem".

Eu nunca deixo livros por acabar, portanto considero-me muito justa no que toca a leituras. Acredito que há certos livros que são horríveis no início mas que, no final, são absolutamente sensacionais. Eu já li alguns assim e estou grata por não ter desistido deles. Por isso, tento manter a mente aberta quando estou a ficar desmotivada com alguma leitura. Ainda assim, há certos livros que, devido a alguns sinais que me dão, sei que não vou gostar.


1.  Eu odeio imediatamente o estilo de escrita do autor: Se eu odeio imediatamente o estilo de escrita do autor, vai ser uma leitura lenta e dolorosa para mim e, provavelmente, eu vou odiá-la. Tirando as obras de José Saramago (que adorei apesar da sua pontuação peculiar), geralmente é isto que acontece.

2. Eu odeio imediatamente a personagem principal: Ok, o facto de eu odiar a personagem principal não faz com que eu necessariamente odeie o livro  como, por exemplo, " A Rapariga no Comboio", mas geralmente esses livros já são feitos para conseguirmos tolerar as personagens odiáveis. Agora quando é um livro em que, supostamente, tenho que me identificar com a personagem principal e tal não acontece nas primeiras páginas, a não ser que esta faça algo de extraordinário, eu vou continuar a odiá-la e vou odiar toda a história.

3. Eu não faço ideia do que é que se está a passar: Embora in media res seja uma boa forma de arrancar com uma narrativa, tem que se ter cuidado com a forma como se usa esta técnica literária, para não deixar os leitores demasiado confusos. Se se põem a atirar para ali personagens, contextos e estão sempre a avançar e a retroceder no tempo eu vou ficar muito baralhada e, por conseguinte, you guessed it,  vou odiar o livro. Gosto de livros que me desafiem a perceber as coisas, mas também não gosto que me causem demasiadas dores de cabeça no processo.

4. Não sinto nenhuma conexão com a história: Para eu apreciar verdadeiramente uma leitura tenho que sentir que estou a submergir na história, do género de, passado alguns minutos, não estar a ver palavras, estar a ver o mundo que está a ser descrito e estar a ver toda a ação a desenrolar-se à minha frente, como se fosse um filme ou, melhor, como se fosse a vida real, e tenho que sentir isto logo no início, caso contrário chego a um ponto em que sinto que estou a olhar para letras sem qualquer sentido.

5. Erros ortográficos: É algo raro, mas que acontece. Normalmente isto acontece com editoras fraquinhas que não querem saber do que publicam, e o resultado são livros cheio de erros ortográficos e gramaticais (alguns tão graves que até dói). Não suporto ler o que quer que seja com erros (é por isso que me sinto mesmo mal quando sou eu a cometê-los). 


E vocês? Quais são os sinais que fazem com que detestem um livro?

28.1.19

O verdadeiro significado do filme "Bird Box"

O verdadeiro significado do filme "Bird Box"

Nas últimas semanas, muito se tem falado sobre "Bird Box", o novo filme original da Netflix que já bateu vários recordes de visualizações. Este conta a história de um grupo de pessoas que lutam para sobreviver, quando o mundo é afetado por estranhas criaturas sobrenaturais que fazem com que a população se suicide se olhar diretamente para elas. "Bird Box", apesar de utilizar um enredo muito semelhante a outros do mesmo género e de ter alguns plot holes, conquistou-me pela fotografia belíssima em tons de azul, pelas atuações, pela banda sonora arrepiante (que tornou certas cenas ainda mais assustadoras) e por algo em específico que, para mim, elevou-o bastante. Por isso, tive mesmo que fazer esta review fora do meu formato habitual.

Para mim, este não foi apenas mais um thriller pós-apocalítico. Eu acredito que, tal como algumas teorias que já vi a circular pela Internet (algumas mais bizarras que outras, é engraçado como estamos todos a interpretar de forma diferente), este tenha um significado muito mais profundo que apenas mais um fim do mundo, tal como já foi feito em muitas outras produções. Acredito que tenha uma essência que o distinga de todos os outros. Esta foi a minha interpretação de "Bird Box", aquela que, para mim, é a sua verdadeira mensagem, que me deixou comovida. Se não ainda viram, não leiam mais nada, porque a partir de aqui o post vai ter alguns spoilers.  

As criaturas simbolizam a depressão. As vozes que as personagens ouvem simbolizam os nossos medo. As pessoas que não usavam as vendas representam aquelas que apreciam a morte. As crianças simbolizam a esperança. Os pássaros simbolizam as memórias felizes às quais nos devemos agarrar nos nossos momentos mais negros. 

Se analisarmos bem as personagens que estavam dentro da casa onde se refugiaram quando esta catástrofe começou, reparamos que todas elas têm algum tipo de trauma que as deixou mergullhadas em tristeza e depressão. Uma gravidez indesejada, casamentos mal sucedidos, um desajeitado rejeitado, a mulher com falta de autoestima que procura sempre o amor e aprovação dos outros....Todos eles estavam a passar por uma má fase, a tentar recuperar, no entanto as criaturas, que simbolizam a depressão, estavam sempre a assombrá-las, a tentar retirar-lhes a vontade de viver. 

O filme ensinam-nos também uma lição ainda mais poderosa: a ter fé. Malorie que, no início, é algo que mantém os seus sentimentos fechados numa gaiola, tal como os pássaros, aprende acreditar naquilo que não vê. O refúgio a que chega, no fim, é uma escola de cegos, o que sumariza toda esta mensagem. As pessoas cegas são aquelas que têm uma verdadeira fé naquilo que não vêem- a fé que a Malorie teve que adotar quando iniciou uma viagem no rio, de olhos vendados, juntamente com crianças. 

A sua jornada de vendas nos olhos é a jornada que todos nós fazemos ao longo da vida. No fundo, andamos todos às cegas, a tentar orientarmo-nos na confusão que as nossas vidas, muitas vezes, parecem ser. 

"Bird Box",  com todas estas metáforas psicológicas, é o que torna verdadeiramente belo, e faz com que as falhas do enredo sejam mais perdoáveis (até porque passam a ter uma explicação). Esta é uma história sobre esperança, de continuar a acreditar na beleza dos nossos sonhos mesmo quando tudo parece um caos.


Já viram "Bird Box"? Qual é que foi a vossa interpretação?

21.1.19

Os meus posts de dicas fazem de mim arrogante?


Há uma uma tendência preocupante,  que está a aparecer tanto no meu blog como na blogosfera em geral: os posts de dicas geram, frequentemente, revolta por parte de algumas pessoas. É cada vez mais frequente aparecerem comentários a dizerem " deves ter a mania" ou " deves achar que sabes tudo". A maior parte das vezes, não são comentários assim tão insultuosos ( em 4 anos de blogosfera recebi muito pior, acreditem), mas são maus o suficiente para serem desnecessários e ofensivos o suficiente para fazer uma pessoa sentir-se insegura. 

Ao publicar as minhas listas/posts de dicas, tenho vindo a constatar que  palavra " deves" parece que incomoda muitas pessoas, como  estivesse a escrever um livro de regras, e eles fossem obrigadas a segui-las cegamente. Já cheguei ao ponto de, no início de publicações, explicar que a palavra " deves" não significa, de forma alguma, que esteja a mandar na vida de alguém ou que esteja a ser condescendente, significa que é apenas algo que pode  ou não ajudar. Mas este disclaimer não adiantou de nada. Aparece-me sempre algum comentário a acusar-me disso mesmo.

Já não é a primeira vez que este tipo de publicações causam este tipo de conflitos. Depois de passarem por uma fase em que seguiam à letra tudo o que liam, agora questionam tudo o está lá escrito. Escrever posts de dicas/listas não é, de forma alguma, fácil de escrever nem fácil de ler. Não é  fácil de escrever porque temos sempre que ter todo o cuidado de para não ofender ninguém e, ainda assim, escrever algo de que nos orgulhemos e que, porventura, ajude alguém. Mas também não é nada fácil de ler porque, dado que hoje em dia estes posts estão em todo o lado, isso significa que nem sempre nos vamos identificar com eles. Vão existir posts em que vamos pensar " Isto é tão eu! Precisava mesmo destas dicas", e vão existir outros em que vamos pensar " isto não se aplica nadinha na minha vida". 

Apesar de os blogs terem cada vez mais conteúdo elaborado, mais bem pensado e mais profissional, não deixam de servir para o propósito para o qual foram criados originalmente: dar uma perspetiva pessoal sobre algo. E sendo uma perspetiva pessoal é, na maior parte das vezes, subjetiva e baseado na experiência de vida da pessoa. Os posts sobre saúde não substituem uma ida ao médico. As reviews de filmes e de livros não estão à altura dos mais conceituados críticos. As receitas partilhadas não se comparam à dos grandes chefs de cozinha. Os posts sobre problemas da vida não são nenhuns conselhos de psicólogos. Grande parte das vezes, os bloggers que fazem publicações com dicas não têm nenhuma formação para isso. Têm apenas a sua opinião, e a sua experiência de vida. Cabe ao leitor a responsabilidade de consumir este tipo de conteúdos de forma consciente, tendo sempre em consideração estes factos.

E por falar em experiência de vida, este é outro assunto que precisa de ser falado. Outra das tendências que tenho constatado é que, quanto mais jovem és, mais revolta os teus posts de dicas geram. Até diria melhor, basta teres um leitor mais velho que tu pare te acusar logo que não sabes do que estás a falar. Até podes ter 40 anos e já ter uma experiência de vida considerável, mas aparece-te alguém com 50 e, para ela, já só estás a dizer parvoíces. Isto é tudo fruto da velha crença que " a idade é um posto", e que não é possível aprender com os mais novos. A verdade é que sim, os mais velhos, à partida, têm  mais experiência de vida mas, por vezes, os mais novos podem ter mais. Tudo depende das nossas vivências e do contexto onde crescemos. Além disso, acho que mais do que no que diz respeito a experiências de vida, a pergunta deveria ser baseada na qualidade destas e não na quantidade. Porque, certamente, todos nós temos experiências de vida diferentes. Sendo assim, a ideia de que também podemos aprender com os mais novos não é assim tão absurda. Nós, jovens, crescemos num contexto e num tempo diferente do que as pessoas de há 20 ou 30 anos atrás, pelo que as nossas aprendizagens são diferentes. Assim, porque é que não podemos também escrever posts com dicas?

Os meus posts de dicas não fazem de mim arrogante, não me acho melhor que os outros nem a dona da razão. Desde quando é que partilhar experiências nos confere alguma destas características sequer?  

11.1.19

Devemos desativar os comentários nos nossos blogs?


Ultimamente, tenho observado uma tendência nos blogs portugueses que já tinha visto acontecer em alguns estrangeiros: bloggers a desativar os comentários dos seus blogs. As razões são várias e todas legítimas: falta de tempo para responder a todos os comentários, comentários sem conteúdo nenhum como " gostei muito do post, segui" ou " segui, segues-me de volta", comentários de pessoas que não leram o post mas que comentam baseando-se nos outros comentários... Mas será que devemos mesmo desativar os comentários dos nossos blogs? Na minha opinião, não.

Se tens a sorte de ter muitos comentários ( e o trabalho, porque os leitores também se conquistam) no teu blog, responder a estes pode ser um bocado avassalador. Em 4 anos de " Life of Cherry", já tive posts meus a ultrapassar os 90 comentários e, às vezes, já tive que repartir os comentários pelas diversas horas do dia ou mesmo por vários dias. No entanto, eu sempre tive a atitude de que, se uma pessoa perde tempo a comentar um post no meu blog, a única coisa correta a fazer é responder-lhe. Há quem não responda (principalmente aqueles blogs que já são mesmo grandes), porém eu cá continuarei a fazê-lo sempre. Se um dia este projeto chegar a esse ponto e eu não conseguir responder a todos, tento responder à maioria ou só a alguns. 

Os nossos blogs são como se fossem a nossa casa, e os nossos leitores as nossas visitas. Vocês impediriam as vossas visitas de falar? Claro que não. Então porque o haveriam de o fazer na Internet? Ao fazê-lo é como se os sentassem todos numa mesa e dissessem " come e cala-te". 

Desativar os comentários passa várias mensagens negativas aos leitores. Em primeiro lugar, passa a mensagem que não estamos interessados em ler o que eles têm para dizer. Também impede-nos de aprender com os nossos leitores. Já li tantas histórias interessantes nos meus comentários e já aprendi tanto com os meus leitores que ficaria bastante a perder se os impedisse de comentar. Mas, acima de tudo, impede-nos de criar relações com os nossos leitores e com outros bloggers.

Eu acho que escrever e receber comentários é a essência daquilo que é a blogosfera. Porque, no final do dia, independentemente do nosso blog ser um hobbie ou uma fonte de rendimento, o principal objetivo da blogosfera é a partilha de ideias, gostos, conhecimentos, reflexões e experiências de vida. Desativar os comentários é cortar relações com toda a gente e viver na própria "bolhinha".  

12.12.18

Vamos parar de ter vergonha dos livros de autoajuda


Admitir que lês livros de autoajuda é a mesma coisa que cometeres suicídio social (que momento tão "Mean Girls" eu vivi agora). As pessoas quase que têm um enfarte de cada vez que ouvem essa palavra.  É um dos géneros literários mais ridicularizados e, por um lado, dá para perceber porquê. Muitos livros de autoajuda prometem coisas irrealísticas ao seus leitores: riqueza, uma vida amorosa perfeita, fim de todos os problemas, um incentivo para mudar de cidade e virar hippie... Mas também existem muitos outros inspiradores, cheios de lições que nos incentivam a ser melhores, a sermos mais motivados, a lutarmos mais por aquilo que queremos. Contudo, esses são frequentemente ofuscados pelo típico estereótipo de livros de autoajuda.

Atualmente, este tipo de obras  tornaram-se ligeiramente mais mainstream  com o lançamento de livros que estão na linha que divide os livros biográficos e autoajuda, tornando-os mais aceitáveis aos olhos da sociedade. Livros como " #Girlboss", " Big Magic" ou " The Art of Not Giving a F*ck" estão a ganhar cada vez mais popularidade. Ainda assim, ler livros de autoajuda é algo que escondemos frequentemente, até encontramos alguém entusiástico como nós. Só aí é que ganhamos coragem para mostrar a nossa estante e partilhar a nossa paixão.

Eu adoro ler livros de autoajuda, e não tenho medo de admitir. Talvez se deva ao facto de eu ser uma pessoa muito fechada no que diz respeito a partilhar os meus problemas, e sinta necessidade de me virar para algo. Ou talvez porque simplesmente goste de os ler. E não tenho que justificar este gosto, da mesma maneira que não justifico porque gosto de romances ou thrillers. Muitas pessoas provavelmente admitiriam isso, se este género literário não tivesse tão má fama.

Porque é que os livros de autoajuda tem má fama? Porque assumimos que as pessoas que lêem este género não sabem tomar decisões por elas próprias e precisam que alguém lhes diga o que fazer e, quando não existe esse alguém, viram-se para os livros. Nem imaginam o quanto estão errados!

Os livros de autoajuda não são para nos dizer o que fazer (odeio os livros que são assim). Servem para nos dar umas luzes sobre aquilo que podemos ser ou que poderíamos ser se nos esforçássemos mais. Servem para nos inspirar com histórias de pessoas com jornadas semelhantes às nossas (ou com jornadas totalmente diferentes mas que, de alguma forma, acabam por se assemelhar à nossa em alguns pontos). Servem para retirarmos de lá umas quantas frases inspiradoras para escrevermos na nossa agenda e relembrarmo-nos sempre delas. Servem para nos fazer ver aquilo que ainda não tínhamos visto em nós próprios. São um bom complemento das opiniões daqueles que nos são próximos ou até mesmo de profissionais. 

Portanto, vamos parar de consumir livros de autoajuda em segredo. A ânsia de querer descobrir como ser um ser humano melhor é natural, e demasiado importante para ser abandonada por vergonha. Da próxima vez que foram a uma livraria, avancem sem medos para a estante da autoajuda. 

22.10.18

Estarão as redes sociais a manter as amizades ligadas a máquinas?

Estarão as redes sociais a manter as amizades ligadas a máquinas?

Como muitos pais antes dos meus, ensinaram-me a não ligar muito aos dramas que acontecem na escola, porque eles não vão ter importância no futuro. Afinal, eu nunca mais iria ver essas pessoas. Eles não faziam ideia do quanto a era das redes sociais iriam alterar isso, não só nas minhas relações, como nas de uma geração inteira.

Agora, uma década depois de ter ouvido esse famoso conselho,  sou amiga da minha paixão do 6º ano no Facebook. Tenho colegas da primária adicionados lá também. Muitos professores meus metem gosto e comentam os meus posts regularmente. Esta ideia de que, após uma fase da nossa vida, nunca mais iremos ver certas pessoas é, portanto, um mito.

Eu não me queixo completamente disto. É tão bom poder continuar a falar com pessoas que as circunstâncias as distanciou de mim, e é tão bom poder continuar a vê-las crescer, a superar desafios e a realizar os seus sonhos. Por outro lado, por vezes sinto que as redes sociais mantém as amizades vivas apenas a nível superficial. Como se fossem doentes em fase terminal que só ainda não morreram porque estão ligados a máquinas. As redes sociais também parecem ser um suplemento conveniente para quando não conseguimos dar atenção suficiente aos nossos amigos na vida real. Até que ponto isto é aceitável?

Após ter passado por várias fases da minha vida (Básico, Secundário...), já consigo detetar um certo padrão no fim de cada ciclo. Saímos todos dessa etapa com promessas que iremos manter o contacto. Ao início fazemos, semanalmente, vários planos ambiciosos como festas, idas ao cinema, uma tarde de férias juntos... Passado algum tempo, esses encontros são substituídos por cafés de mês a mês. Após um ano, os encontros são substituídos por chamadas regulares. Depois, por mensagens de texto. E, finalmente, reduzem-se a simples comentários e likes no Facebook e no Instagram. Poucas são as amizades que escapam a esta espiral.

Todos nós reconhecemos que as amizades requerem esforço e presença, no entanto estamos constantemente a entrar nesta espiral descendente. Aceitamos isto porque " é melhor do que nada". Mas, se calhar, está na altura de desligar a máquina. Existem amigos para sempre, e amigos apenas para uma certa fase da nossa vida, e aceitar isso não significa que sejamos interesseiros.

Agora, eu vejo os likes no Facebook como aquilo que são: apenas likes. Likes que não substituem uma mensagem, uma chamada ou a presença dessa pessoa. E, apesar do que o Mark Zuckerberg possa dizer (porque ele está apenas a puxar a brasa para a sua sardinha), apoiarmo-nos nas redes sociais não é uma forma sustentável de manter amizades. Há pessoas que só faz sentido permanecerem  na nossa vida durante determinado período de tempo. Depois disso, temos que deixá-las ir, e ficar apenas com todas as memórias e lições que nos deixaram.


(Texto inspirado nesta publicação do blog "A Sofia World")

24.9.18

7 coisas completamente erradas no filme "Sierra Burgess is a Loser"

 7 coisas completamente erradas no filme "Sierra Burgess is a Looser"

(Atenção: Esta publicação contém spoilers. Se não viram o filme "Sierra Burgess Is a Loser",  não leiam esta publicação.)

Confesso que, da primeira vez que vi o filme "Sierra Burgess is a Loser" achei-o fofinho. Tem bons atores, não é uma comédia romântica aborrecida, até é bastante divertida e consegue cativar-nos até ao fim.  Já lhe reconhecia algumas falhas, mas até achei a história bonita. Contudo, à medida que outras pessoas também o foram vendo, foram dando a sua opinião e manifestando a sua revolta,  eu fui começando a reparar em todos os problemas da história. Quando voltei a rever muitas das cenas, fiquei abismada ao constatar que acreditei que aquilo era romântico quando, na verdade era muito, muito errado.

"Sierra Burgess is a Loser" tem tantos problemas que chega a ser chocante como é que uma pessoa não os viu logo. Aparentemente, o filme foi cuidadosamente de forma as que as personagens saíssem favorecidas e nós gostássemos delas. Eu própria, que costumo estar sempre atenta a red flags, deixei escapar muitas coisas por isso. Este filme é perigoso e pode levar-nos a considerar ações imorais românticas.

Poderia ter incluído aqui muitas mais cenas, acreditem. Todavia, isso tornaria a publicação muito exaustiva, pelo que decidi focar-me apenas naquelas que considerei mais relevantes. 


1. O catfish: Descobrirmos que a nossa paixão tem outra identidade já não é novo no mundo dos romances, mas a Sierra Burgess elevou-o a um nível muito extremo. Este foi o ponto que me fez torcer o nariz logo no início, mas eu achei que os produtores iriam arranjar uma forma de tornar aquilo um pouco mais perdoável. Porém, pelo contrário, eles conseguiram-no torná-lo no pior dos casos de catfish que eu já vi (sim, ultrapassou os casos que se viam naquele famoso programa da MTV, "Catfish"). Muitos dos pontos que estão nesta lista mostram o quão mau foi.

2. Quando Sierra finge que é surda: Quando Dan e Sierra se cruzam com Jamey ela, em vez de enfrentar a situação, finge que é surda. Ok, não querias que a tua voz fosse reconhecida, mas ao menos poderias ter fugido, sempre era menos mau. Pior de tudo, é depois a Sierra ficar a pensar que partilharam um momento bonito. Não, isso foi gozar com a deficiência de uma pessoa!

3. O beijo que deveria ser da Veronica: A meio da história, a Sierra combina um encontro com o Jamey, e a Veronica vai no lugar dela, recebendo, ao longo do encontro, indicações por SMS do que dizer. A certa altura, quando o Jamey quer beijar Veronica, ela força-o a fechar os olhos e põe a Sierra no lugar dela. Jamey beijou-a pensando que estava a beijar a Veronica. Pareceu romântico, não pareceu? Pois, mas se esta cena fosse ao contrário, as raparigas já estariam a falar todas sobre consentimento. Malta, temos que nos lembrar que o consentimento também existe para o sexo masculino, e beijá-los sem autorização está englobado nisso. Neste caso, o Jamey consentiu beijar Veronica, não uma estranha qualquer que ele nunca viu sequer.

4. Quando Jamey manda uma foto em tronco nu à Sierra: Para dar uma pausa nas acusações à Sierra (porque são mesmo muitas), vamos aqui falar também das cenas erradas que o Jamey fez (porque ele aqui não é nenhum Peter Kavinsky). Uma delas foi mandar uma foto em tronco nu, sem avisar. Nunca se  deve mandar fotos com algum tipo de nudez sem avisar a outra pessoa. Isto também é uma questão de consentimento.

5. Quando o Jamey diz à Veronica que a sua voz parece "magra" outra vez: Ai, Neo Centineo, tu parecias muito fofo em "All The Boys I Loved Before", aqui que género de falas tu tens (vá, estás perdoado, a culpa é de quem escreveu o guião). Bem, quando o Jamey conhece Veronica (a verdadeira) ele ouve a sua voz normal, aquilo que ele considera a voz de uma rapariga magra. Depois, ele fala com a Veronica das mensagens (aka Sierra) e acha que a sua voz está mais "cheia". A Sierra até pergunta se ele está a chamar a sua voz de "gorda", e ele insiste em dizer que não é esse o caso. Avancemos então para o encontro com a Veronica real, em que ele diz que ela tem a voz "magra" outra vez. Hum, ok, obrigada? Que raio de constatações são estas?! Desde quando é que a voz existem vozes magras ou gordas?

6. A Sierra não teve nenhuma consequência pelas suas ações: A Sierra começou por fazer catfish, discriminou muita gente pelo meio, virou todas as pessoas que gostava dela contra ela e, ainda assim, no final, tudo parece que se resolve magicamente. Ela não enfrentou nenhuma consequência pelas suas ações. Ainda pior, ela acaba por atingir o objetivo que sempre quis, namorar com o Jamey, usando meios totalmente errados! A propósito dele, achei a sua declaração de amor muito forçada. Uma pessoa que sofreu catfish nunca reagiria desta forma. Mesmo reconhecendo que se apaixonou pela personalidade dela, demoraria imenso tempo a ganhar confiança nela e teriam que recomeçar tudo de novo (desta vez, sem segredos!). Não seria assim tão instantâneo. Nenhuma pessoa sã aceitaria entrar num relação quando ACABOU DE SER ENGANADA! "Sierra Burgess is a Loser" poderia ter-se redimido neste ponto, ao dar um final mais real ao enredo, um final em que percebemos que o conceito de falhado é muito relativo, e que tem mais a ver com as nossas ações do que com as aparências (isto teria sido uma forma brilhante de explorar a trama).

7. Jamey dá um elogio (mesmo!) muito terrível no final do filme: Passo a citar "Podes não ser o tipo de toda a gente, mas és o meu tipo". O quê?! Ele não poder ser o tipo de toda a gente porquê, por não ter o peso de uma modelo da Victoria Secret? Dá a sensação que ele andou este tempo todo atrás de uma rapariga magra e que não se apaixonou mesmo pela personalidade da Sierra. Eu não sei quem é que ele quer enganar.


Depois de ter visto "Sierra Burgess is a Looer", de ter acreditado que era bonito, só mais tarde descobrir todos os problemas relativos ao mesmo e ver o mesmo a acontecer com muita gente  é que percebi o quão fácil é consumir conteúdo só para nos entretermos sem pensar nas mensagens nocivas que podem estar por detrás dos mesmos. Nem todas as obras de ficção são perfeitas - e não podemos cair no erro de julgar tudo aquilo que transmitem- mas só podemos ignorar as suas falhas até certo ponto.


Já viram "Sierra Burgess is a Loser" ? Qual é a vossa opinião?

21.9.18

Livro: Jantar Secreto

 Livro: Jantar Secreto

Por vezes, eu demoro uma quantidade absurda de tempo a escrever reviews de livros. Ora porque não quero dar spoilers, ora porque não sei como descrever o que senti, ora porque quero fazer justiça à história...  Chega a ser muito frustrante. E com este então, que foi tão "fora da caixa", eu demorei ainda mais tempo.

2018 está a ser, definitivamente, o ano em que eu estou a explorar a fundo a literatura brasileira, e "Jantar Secreto" é uma grande adição aos meus favoritos.


Sinopse


Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Panamá para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem os possíveis para pagar a faculdade e manter vivos os seus sonhos na capital fluminense. Mas o dinheiro é pouco e aluguer apertado. Para sair do buraco e manterem o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meios de jantares secretos, divulgados pela Internet e dirigidos a uma clientela exclusiva da elite carioca. Na ementa: carne humana. A partir daí, eles envolvem-se numa espiral de crimes e levam ao limite uma índole perversa que jamais pensariam existir dentro deles. 


A minha opinião 


Eu não estava preparada para o quão perturbador iria ser "Jantar Secreto". Eu já deveria ter adivinhado pela sinopse, que deu logo a entender que esta história iria envolver canibalismo, mas isto conseguiu ser muito mais duro e cruel do que eu imaginava. Na primeira metade do livro, eu ainda pensei "bem, isto é pesado mas já li pior". Porém, a partir daí até ao final foi mesmo "O QUE É ISTO? Meu Deus do céu, o que é que estou a ler?!". O Raphael Montes não tem medo de descrições violentas. E acreditem, ele descreve detalhadamente tudinho, desde o corte das pessoas, cenas de violência extrema, até o próprio sabor da carne humana. Por estes motivos, eu não aconselho esta leitura a pessoas menores de 18 anos. Mesmo que sejam maiores de 18 anos, se são muito sensíveis e não costumam ter estômago para cenas grotescas como estas, nem pensem em começar sequer! Pronto, já ficaram avisados.

Só para terem noção, nos dois dias em que estive a ler o livro, eu só comi peixe,  porque eu não ia conseguir comer carne sem pensar nas atrocidades que estava a ler. Eu cheguei a passar fisicamente mal, para verem a intensidade do enredo.   

Durante a leitura, é quase impossível refletir sobre canibalismo sem refletir também sobre o consumo de carne normalizado pela sociedade. O autor chega a tecer duras críticas aos consumidores de carne, o que me leva a crer que ele é vegetariano - e, mais tarde, uma breve pesquisa no Google confirma as minhas suspeitas. Não vou entrar em discussões sobre vegetarianismo nem o porquê de eu não ser vegetariana (já fiz isso aqui) porque a questão é complexa de mais para isso mas que, de facto, o nosso consumo de carne enquanto sociedade é exagerado, isso ninguém pode negar. Não poderia concordar mais com o autor quando ele afirma "A carne vicia". As indústrias aproveitam-se disso. Assim, além da importante questão da reeducação alimentar, acho que esta história também é uma crítica indireta à forma como as indústrias tratam os animais. 

No entanto, mais do que o canibalismo, "Jantar Secreto" aborda algo ainda mais chocante e muito pertinente atualmente. Tanto que arriscaria dizer até que o canibalismo é apenas um tema secundário. Não é preciso pensar muito para perceber do que se trata. O que é que levou Dante e os seus amigos a mergulharem neste negócio negro? Dinheiro. Talvez, poder. Não faz diferença, aliás, estas duas motivações são o mesmo: a verdade mais cruel é que dinheiro é poder. E, ao longo desta trama, vemos o quão longe as personagens vão por dinheiro. É assustador pensar que isto pode acontecer na realidade, a qualquer um, por muito "normal" que pareça. O dinheiro cega as pessoas, faz com que elas esqueçam completamente os seus valores.

Apesar do tema pesado, é muito fácil ler numa só tacada. A escrita de Raphael Montes é meio YA, muito simples (é mesmo só neste aspeto que é YA, atenção), que nos permite ir de um capítulo a outro de uma sem ficarmos exaustos. 

Como devem calcular, é difícil gostar das personagens ou mesmo ter algum tipo de simpatia. É natural sentirmos alguma pena em algum momento. Eu se calhar não senti tanto como o desejado pelo autor por causa de algo que acontece logo no início e que considero uma falha. Eles começam estes jantares porque Dante recusa-se a pedir ajuda à mãe, que é bastante rica. Eu compreendo que ele não queria sentir-se outras vezes nas garras da mãe mas, caramba, entre isso e contribuir para o canibalismo, é preferível ouvir o "Bem te disse!" da mãe. Teria sido mais credível se a mãe de Dante fosse pobre. Aí sim, eles estariam numa situação sem escapatória. É só uma pequena falha, todos os livros os têm, nem os melhores escapam a isto. 

Dado que a sinopse atira tudo para a mesa, desde o início, estava à espera que tudo fosse previsível (afinal, até o prólogo revela que aquilo vai dar merda)  e, por este motivo, não estava à espera do final. Que plot twist e mais não digo! Foi mesmo ali nas últimas páginas, quando já estava a dar a história por terminada. A única coisa que tenho pena é que foi um bocado apressado, não houve grandes explicações, e sinto que deveria ter sido mais explorado.

"Jantar Secreto" é completamente louco, doentio, viciante e eu recomendo-o vivamente a todas as pessoas que estiverem preparadas psicologicamente e emocionalmente para o lerem.  Fez-me ficar apaixonada pela escrita de Raphael Montes, ele é o Stephen King versão brasileira. Agora fiquei  mesmo curiosa para ler outros trabalhos dele.


Já leram este livro? Digam-me o que acharam nos comentários.

26.7.18

Onde estão os universitários nas histórias YA?

Onde estão os universitários nas histórias YA?

Ler YA como jovem adulta é uma experiência interessante. Se por um lado, reconheço as vantagens que existem em ler livros deste género da vida adulta, por outro lado sinto-me um bocado estranha ao ler histórias que se passam no Secundário, uma etapa que eu já passei.

Nos últimos tempos, tenho lido muitos romances adultos que se passam na Universidade e comecei a interrogar-me acerca do motivo pelo qual nenhum autor YA escreve sobre esta fase entre a adolescência e a vida adulta. Porque é que ninguém fala da fase estranha que é a nossa experiência universitária.?Porque não, não é só a adolescência que é uma fase estranha! Quando eu era criança, eu olhava para os jovens de 20 anos e pensava "Uau, eles já são tão adultos!". Mas agora que já atingi esta idade, eu não me sinto nada adulta. Eu sei, no fundo nunca nos vamos sentir adultos, mas sobretudo nesta idade. Já me sinto (muito) melhor na minha pele, sinto-me mais confiante, já vivi muitas experiências incríveis, tenho amigos dos quais me orgulho bastante e estou a começar agora a ver o mundo de outra forma. Mas ainda há muita coisa que não sei. Não sei quase nada de política, não percebo grande coisa de impostos nem de IRS, ainda estou a tentar definir aquilo que quero ser e a minha entrada para o mundo de trabalho... E tudo isto precisa de ser falado!

A adolescência consegue ser terrivelmente difícil. Não estou aqui a negar isso. Os adolescentes precisam de sentir que não estão sozinhos nesta fase de crescimento e de grandes mudanças nas suas vidas. A ficção YA é muito importante para eles e desempenha aqui um grande papel. No entanto, ninguém passa de adolescente para um adulto formado. Nem de perto! Assim, nós, jovens adultos, precisamos de livros que decorram na Universidade.

Ok, eu sei que, tecnicamente, este tipo de literatura destina-se para jovens entre os 12 e os 18 anos, e que as personagens universitárias pertencem aos livros de adultos. Porém, a realidade é que a ficção adulta não explora as personagens universitárias da forma mais ideal. Estes aparecem, frequentemente, em livros cujo foco principal é o romance e/ou sexo. Não é que seja necessariamente mau, porque isso também faz parte desta idade mas, nós, leitores, também gostaríamos de ler livros que explorassem outras coisas que também fazem parte desta fase.

"Fangirl" foi o único livro YA que li cujas personagens eram universitárias. É dos poucas histórias que retratam a grande mudança que é a transição do Secundário para a Universidade e todas as consequências que resultam desta, como perder o contacto com alguns amigos, ficar longe da família, ser introvertido e ter que estar num meio grande... É um dos meus livros favoritos por esta razão, por falar de uma fase que estou a viver. 

Eu gostava de ver mais livros assim, que explorassem os altos e baixos da vida dos jovens nos seus 20 e tal anos. Quando eu estava a viver fases difíceis como adolescente, eu encontrava sempre alguma personagem na ficção a passar por algo semelhante, com que me podia identificar e com quem podia aprender. Eu ainda encontro isso nos livros YA. Algumas mensagens que estes passam ainda se aplicam à minha vida, quer seja por serem universais ou por serem mensagens que eu não entendia quando era mais nova e só com uma idade mais avançada poderia entender. Porém, existem experiências específicas que só vivemos na universidade, e eu gostava que a ficção retratasse mais essas experiências, dando-nos mensagens próprias para as mesmas. 

Não acredito que precisamos, necessariamente, de criar um novo género literário para os univeristários. Muitos educadores defendem que os adolescentes não se irão identificar com as personagens se forem muito mais velhas do que estas. Eu não acho que isso seja necessariamente verdade. Sim, não devemos meter personagens demasiado "velhas" na ficção YA, mas também acho que seria interessante incluir personagens universitárias, para os jovens poderem ver a próxima etapa que os espera e para nós, universitários, nos podermos identificar mais com as histórias. 

Gostava de, no futuro, ver livros que não resumissem a vida de um jovem adulto a romance ou como uma fase onde quase nada de suficientemente interessante para ser representado na ficção acontece. Quero ver mais livros que mostrem que não se entra de repente na vida adulta, que é algo que acontece por fases. A vida não acaba depois do Secundário, escritores, ok?

19.7.18

A blogosfera não vai morrer, a não ser que vocês deixem


Nos últimos meses, têm-se discutido muito por aqui se a blogosfera está morta ou se está a morrer. Desenganem-se se pensam que isto é um tópico novo, porque não é, já foi discutido muitas vezes ao longo dos anos. A blogosfera já passou por muitas fases, e este é o tópico que costumamos discutir quando estamos numa fase má. 

No entanto, reconheço que estamos a passar por uma fase mais difícil do que todas aquelas que já passamos. Pela primeira vez na vida, estamos a ser ultrapassados não apenas por uma plataforma, mas por várias. Estamos a ser ultrapassados pelo Instagram, que oferece gratificação imediata em formas de "gostos" a cada foto. Estamos a ser ultrapassados pelo Youtube, cujos vídeos dão muito menos trabalho a ver do que ler sobre um mesmo assunto. Estamos a ser ultrapassados pelo Twitter, que permite partilhar ideias e fazer debates sem  termos que escrever testamentos. Estamos a perder muitos leitores para todas estas plataformas. Pior que tudo, estamos a perder bloggers. 

Quando comecei a ler  esta publicação da Inês, ao início, fiquei completamente destroçada. Será que a blogosfera está mesmo a morrer?  Porém, à medida que fui lendo (e pensando no amor que a Inês tem pela blogosfera), percebi que a minha resposta a esta pergunta é diferente da da  Inês: não a blogosfera não vai morrer, a não ser que nós deixemos.  Identifico-me com muitas das coisas que a Inês disse (e aconselho-vos a ler a publicação, porque está uma reflexão muito boa e sincera), mas não vejo a apoptose blogosférica como algo iminente. 

A blogosfera não está a morrer. Sim, temos outras plataformas que estão a ofuscar a nossa. Sim, definitivamente já não estamos na moda. Mas ainda não estamos a entrar em vias de extinção. Estamos sim a passar por uma fase de mudança e, como todas as fases de mudança na blogosfera, estas custam. As visualizações caem, os comentários são escassos e a desmotivação, por vezes, ataca. Mas tudo isto faz parte de um processo de adaptação, em que estamos a avaliar aquilo que temos que fazer para fazer com que a nossa comunidade sobreviva nas condições atuais. Já não podemos publicar apenas os nossos pensamentos random do quotidiano, para isso temos o Twitter. Já não podemos fazer uma publicação só com fotos, para isso temos o Instagram. Já não podemos criar publicações para "encher chouriços", porque as pessoas já não se vão dar ao trabalho de ler tudo o que publicamos. 

Como em todos os processos de adaptação, há quem não sobreviva. É como na natureza, há uma seleção natural. Existem blogs que estão a desaparecer, porque não conseguem adequar-se às condições atuais. Acabam por desistir porque as coisas "já não são como antigamente", porque se recusam a mudar e desprezam todos aqueles que evoluem. Outros blogs desaparecem porque simplesmente não pertencem aqui.  Quem está na blogosfera por dinheiro descobre agora que existem plataformas mais rentáveis. Quem não gosta realmente de escrever e só o fazia porque queria ter uma voz na Internet, vê agora que tem outras formas de comunicar. Esta seleção natural é assustadora, porque deixa muitos blogs pelo caminho. Apesar disso, esta não está a aniquilar a blogosfera. Sabem o que é que está a fazer? A dar mais espaço para os bloggers que realmente adoram isto.

Portanto, a vocês que já estão com bandeiras brancas e já estão a fazer as malas: a blogosfera não está a morrer, porque nós não vamos deixar. Nós não vamos a lado nenhum, e ai de quem tente obrigar-nos a desistir! Se as outras plataformas nos estão a tentar ofuscar, nós vamos começar a inovar e a  criar coisas que estas não podem criar. Vamos criar histórias que as fotos não podem contar. Vamos partilhar pensamentos e ideias que não podem ser encolhidas num tweet. Vamos criar conteúdo tão cativante que faça com que as pessoas larguem a preguiça e leiam o raio do texto, mesmo que este tenha mais que um parágrafo. 

A blogosfera não vai a lado nenhum. Agora temos é mais plataformas por onde escolher. A nossa função é fazer com que esta continue relevante e que continue a cativar pessoas que estão interessadas por esta. Porque, acreditem, existirão sempre pessoas interessadas em ler. Enquanto não criarem um plataforma melhor para a escrita, a blogosfera é a nossa casa. Uma casa que nos irá receber de braços a abertos todos aqueles que-como eu e a Inês- nos exprimimos muito melhor a escrever do que em vídeo ou do que de qualquer outra forma e que, mesmo tendo a capacidade de comunicar com outras plataformas, escolhemos esta, porque a nossa paixão pela escrita é mais forte. Uma casa que, acima de tudo, não irá fechar portas porque fomos nós que a criámos e fazemos parte dela. Enquanto tivermos isto em mente, a blogosfera estará bem viva. 

25.9.17

Sim, tenho um blog anónimo. Mas também tenho sentimentos.

 Sim, tenho um blog anónimo. Mas também tenho sentimentos

Durante os 3 anos de existência deste blog, eu tenho sido muito feliz. Tenho escrito imenso, tenho  recebido imensos comentários super queridos, já conheci blogs incríveis, já aprendi imenso com as histórias e experiências que partilharam pela blogosfera e, sobretudo, cresci imenso enquanto pessoa. Mas durante estes 3 anos também já vi o lado mau da blogosfera: pessoas que criticam posts e bloggers por tudo e por nada, pessoas que gostam de ser do contra, pessoas que acham que a só a opinião delas é a correta....

Não, nem tudo foi um mar de rosas nesta minha aventura blogosférica. Também já tive a minha dose de comentários e mensagens insultuosas, como qualquer pessoa tem quando exprime as suas opiniões na Internet. Contudo, à medida que o blog vai crescendo, vou recebendo cada vez mais comentários e mensagens destas, quase na mesma proporção em que recebo elogios e mensagens amorosas ( e ultimamente, é algo que me tem acontecido muito, confesso que não estou habituada a lidar com tantas mensagens, ainda é um pouco overwhelming).

Até aqui, pronto, tudo bem. Não é nada correto andar por aí insultar pessoas na Internet, mas todos os bloggers já sabem que isso é um efeito secundário de publicar opiniões online ( e já sabemos que vai piorando à medida que o nosso espaço virtual vai crescendo. Como costumamos dizer entre bloggers " sabes que estás a ficar famoso/a quando começas a ganhar haters"). Agora, aquilo que não compreendo é terem a necessidade de insultarem ainda mais fortemente os bloggers anónimos. Infelizmente, tenho constatado que as pessoas são capazes de ser ainda mais duras com os autores de blogs anónimos.

Ok, eu até compreendo. Há muita malta aqui na Internet que se gosta de esconder atrás do anonimato para escrever aquilo que não tem coragem de dizer na realidade, e insultar quem lhe apetece. Porém, como em tudo na vida, não podemos generalizar. Existem muitos motivos que levam a que uma pessoa escolha ter um blog anónimo: para o poder ter sem os pais o impedirem ( como é o meu caso), por incompatibilidade com o emprego que têm ( por exemplo, pessoas que trabalhem em Política, Direito,...), ou porque, pura e simplesmente, não lhes apetece ter a cara escarrapachada num site da Internet que TODA a gente pode aceder. São escolhas. Porém, independentemente de sermos anónimos ou não na blogosfera ou na Internet, nada justifica maus comportamentos ou insultos. Lá por não mostramos a cara, não quer dizer que tenhamos ganho o direito de dizer aquilo que nos apetece sem medir as consequências. Devemos agir sempre da mesma maneira que agiríamos na vida real. Pelo menos, é assim que eu penso, e é isso que tenho em consideração sempre que escrevo algo para o blog. Portanto, este preconceito em relações a bloggers anónimos, para mim, não faz sentido nenhum.

Ter um blog público é tão válido como ter um ter um blog anónimo. Isto significa que os textos publicados num blog público são tão válidos como os que são publicados num blog privado, assim como as opiniões que estes incluem. Portanto, qual é a cena de atacarem mais uma pessoa só porque " ah e tal, és anónimo(a), por isso decidi atirar mais a matar". Por detrás dos blogs anónimos, existem pessoas reais, com opiniões reais e com sentimentos. Lá por não verem a pessoa, não quer dizer que esta não exista, que seja apenas uma personagem virtual.

Nem toda a gente escolhe o anonimato na blogosfera e na Internet por ter vergonha de si próprio e/ou de exprimir a sua opinião. Muitas vezes, escolhem-no por uma questão de privacidade, algo a que têm todo o direito. Contudo, tudo o que essas pessoas escrevem deve ser levado a sério, para o bem e para o mal. Merecem  tanto elogios quando escrevem algo muito bom, como duras críticas quando escrevem algo, de alguma forma, ofensivo ( se bem que isto do ofensivo é muito relativo, há pessoas que se ofendem com pouco). Por isso, vamos tratar anónimos e não-anónimos com igual respeito, da mesma forma que tratamos ( ou pelo menos, deveríamos tratar) as pessoas que conhecemos na vida real.

O meu blog para já é anónimo ( está mais num estado de semi-anonimato neste momento, dado que têm muita informação acerca de mim e uma foto minha de costas), mas num futuro próximo será público. Neste momento, a minha vida pessoal não o permite que assim o seja. Não é por vergonha de mim própria ( porque, modéstias à parte, até sou bonita), não é por ter vergonha de expressar a minha opinião ( porque já existe um grupo considerável de pessoas na realidade que sabe a minha verdadeira identidade, e só não existem mais pessoas a saber porque senão o efeito de anonimato perde-se), é porque neste momento foi esta a minha opção. Contudo, esta escolha não faz com que as minhas opiniões sejam menos válidas, nem tão pouco que eu seja menos humana, e que por isso possa levar com insultos a torto e a direito. Vocês podem não ver a minha cara, mas eu continuo a ter sentimentos, ok? 

20.6.17

Porque é que " Thirteen Reasons Why" não precisa de uma 2º temporada


Ok, antes que me matem ou eu perca seguidores, eu prometo que este é o último post que faço sobre esta série que deu muita polémica este ano. Achei só importante eu falar do motivo pelo qual não concordo que haja uma 2º temporada desta série ( aviso já que poderão haver uns ligeiros spoilers, por isso, quem não viu a série, pelo sim pelo não, é melhor não lerem).

Apesar de eu ser da opinião que " Thirteen Reasons Why" promove o suicídio em vez de o combater, eu gostei de ver a série. Até gostei da história ( apesar dos defeitos que enumerei aqui e aqui). A certa altura, tive é que me abstrair e concentrar-me no facto de ser ficção. Gostei também da prestação dos atores, e da banda sonora maravilhosa. Contudo, não acho que esta série precise de uma 2º temporada. Aliás, eu acho que muitas séries ficariam melhor se tivessem apenas uma temporada. Muitas vezes, acrescentar uma segunda temporada parece mais uma tentativa de ganhar mais dinheiro e fama do que propriamente de dar continuidade a uma história. Mas isso já dava assunto para outro post, por isso vou explicar porque é que eu acho que esta série só precisa de uma temporada.


1. A história da Hannah acabou: Já ouvimos todas as cassetes, e estas foram sempre o centro da história. Além disso, a Hannah foi sempre a personagem principal durante toda a série, pelo que não faria sentido uma segunda temporada sem ela. É certo que a poderão incluir na 2º temporada, mas deduzo eu que seja na memória das outras personagens, mais em segundo plano, pelo que não faria sentido. Portanto, a não ser que, de alguma forma, a Hannah afinal esteja viva ( o que também não faria sentido, porque esta série passaria do tema suicídio a ser uma série sobre psicopatas), mais vale deixar tudo como está.

2. O desfecho da história está muito bem como está: Ok, é óbvio que a série terminou com muitas questões por responder, nomeadamente o que é que os pais de Hannah decidem fazer com as cassetes, se o Alex cometeu suicídio ou não,... No entanto, no final do dia, nós não precisamos mesmo destas respostas. Sabemos que, eventualmente, o Clay irá ficar bem, que os pais irão aprender a sobreviver com a dor da perda da filha, muito provavelmente as cassetes vão ser divulgadas e vai ser feita justiça... Podemos deixar o final assim, um pouco em aberto, para estimular a imaginação? Parece que, hoje em dia, os produtores/realizadores têm medo de deixar finais em aberto.

3. Mais problemas irão começar a parecer irrealistas: Para haver uma 2º temporada, suponho que queiram explorar outros problemas das personagens que não ficaram bem desenvolvidos na 1º temporada. No entanto, aquilo que eu me pergunto é quantos problemas e conflitos pode ter uma simples escola secundária? É que, a certa altura, começa a ser um pouco irrealista e difícil de acreditar que tanta coisa aconteça numa mesma escola.

4. O livro nunca teve sequelas: Sendo esta uma série baseada num livro, e sendo que este nunca teve sequelas, porque motivo então vão fazer outra temporada? Vão se basear em quê? Não sei até que ponto o autor do livro vai achar muita piada à situação. É que poderão estar a estragar uma história que estava bem como estava.

5. Há histórias que só precisam de uma temporada: Eu gosto muito de ver séries, mas se há coisa que me irrita é ver certas séries terem 10, 11, 12 temporadas quando, na verdade, só precisavam de ter uma. Este é um drama sobre suicídio. Se continuarem a fazer mais temporadas, passará a ser um drama sobre crimes, roubos ou sabe-se lá mais o quê. Se querem explorar outras personagens, peguem nelas e façam uma série diferente, complementar a esta.


E vocês? Gostariam de ver uma 2º temporada desta série, ou não acham necessário?

3.6.17

13 coisas que eu não gostei em " Thirteen Reasons Why" ( com spoilers)


Calma, eu não me enganei. Sim, eu já fiz um post sobre as 13 coisas que eu não gostei em "Thirteen Reasons Why", mas foi sem spoilers, para quem não viu a série. Esta é a versão com spoilers, pelo que aconselho a quem não viu a série a não ler este post.

Decidi fazer esta versão para poder discutir mais detalhadamente esta série. Alguns pontos que não gostei são relevantes, outros são meros detalhes que não fazem grande diferença, mas, de qualquer das formas, achei muito interessante abordar. Já realcei no outro post, que gostei da série, mas há muitas coisas que não batem certo, e hoje vou falar mais aprofundadamente dessas coisas.


1. A Hannah está sempre a queixar-se de que não é popular:  A rapariga faz, literalmente, um amigo novo em cada episódio, vai a todas as festas, e namora praticamente com todos os rapazes dessa escola. Se ela não é popular, então o que é que eu era quando andava no secundário? É certo que ela fez uma escolha infeliz nos amigos e também nos rapazes, mas não podemos dizer que ela não era popular, o que é não era pelas melhores razões.

2. A Hannah tem mau gosto em rapazes: E por falar em más escolhas, a Hannah tinha um péssimo gosto em rapazes. Valha-me nosso Senhor! Sim, os rapazes eram bonitos, mas eram parvos como o caraças, e aproveitavam-se dela. Com um rapaz tão decente como o Clay mesmo ao lado, ela passou o tempo todo a curtir com outros. Apetecia-me entrar na série e dizer " Anda cá Clay, que se ela não te valoriza, valorizo-te eu!".

3. Ela queixava-se que não tinha verdadeiros amigos: Ok, pelo andar desta lista, estou a ver que a maior parte dos meus problemas vão ser com a protagonista. Eu já tinha avisado no outro post que não me identificava nada com ela. Anyway, ela estava sempre a queixar-se que não tinha amigos, o que me irritava profundamente. Então e o Clay? O rapaz esteve ao teu lado o tempo todo durante a série, e ajudava-te ( ou, pelo menos, tentava), em tudo o que precisavas. E o Tony? É certo que a vossa amizade nunca ficou muito bem esclarecida na série, mas se lhe confiaste as cassetes, algum nível de confiança deviam ter.

4. E por falar do Tony, qual é o papel dele na série? : O papel do Tony na série nunca ficou muito claro. Nunca ficou muito bem explicado a relação dele com a Hannah, o que eu considero vital para compreendê-la melhor. Acho uma falha grave da série.

5. A ferida na testa do Clay: Ok, eu percebo que a ferida da testa do Clay serviu para fazer a distinção entre o passado e o presente mas, fogo, aquela merda demorou muito tempo a cicatrizar. Eu, como estudante de Enfermagem, fez-me impressão acompanhar o processo de cicatrização da ferida. É que esta parecia igual todos os episódios. Era de esperar que, por volta do episódio 4, estivesse melhor. Se não estava a melhorar, era melhor ter levado uns pontos! Mas não, continuou igual, e quando finalmente fica melhor, espatifam a cara outra vez ao moço!

6. A escola devia ser encerrada pelo governo: Desculpem, mas que tipo de escola permite que um jovem controle completamente um jornal, publique lá o que lhe apetecer, permite que os professores analisem um poema, de certa forma humilhante, e ainda permite que alunos façam questionários para encontrar almas gémeas, em que nos resultados divulgam livremente números de telemóvel de alunos? Juro que não percebo! Além disso, a Hannah disse indiretamente a vários professores, até ao psicólogo da escola, que se queria matar, e ninguém faz nada?

7. O Clay demora anos a ouvir as cassetes: Meus amigos, eu se recebesse cassetes de uma rapariga morta, por muito macabro e doloroso que fosse, eu ouvi-as todas numa noite. O Clay demorou anos a ouvi-las! Até irritou as outras personagens! Meu, eu sei que deve ser doloroso ouvirmos a voz da nossa paixão sabendo que ela já está morta, mas nem que tenhas que tomar calmantes, ouve as cassetes, não queres saber o que aconteceu, meu?

8. O gajo irritante da câmara: Meus Deus, o rapaz é tão irritante! E o que é isto de ele andar por í a tirar fotos a toda a gente na escola e, pior, à noite, em janelas, a invadir a privacidade das pessoas? Na minha escola, o fotógrafo de serviço só podia tirar fotos de eventos, e com autorização das respetivas pessoas que aparecessem na foto.

9. A Hannah faz drama de tudo:  O Clay disse uma vez, num episódio " Tudo tem que ser o teu drama!" e eu não poderia concordar mais. Faço uma exceção para o facto de ela ter sido violada, ter assistido a uma violação e ter contribuído para uma morte ( coisas horríveis, aí sim, é que tinha razão para ser dramática), mas o resto do conteúdo das cassetes são coisas normais que acontecem em todas as escolas secundárias. Uma lista a dizer que é o melhor rabo? Também já aconteceu na minha escola. Amizades que acabaram e raparigas que se revelaram ser más? Também já aconteceu na minha escola e já me aconteceu a mim. É lixado, não devia acontecer, mas não tão lixado ao ponto de gravarmos cassetes a falar disso. Às vezes, dava a sensação que, basta mandar um olhar de forma errado para a Hannah para ela, duas semanas depois, nos mandar uma caixa de cassetes para casa.

10. O Alex não seria popular na minha escola secundária: Expliquem-me como é que este gajo é popular? Eu não sei como é que é possível. O gajo tem um cabelo parolo, veste-se de forma inadequada, e querem que eu acredite que é realista ele andar a curtir com todas as raparigas da escola e ser tão popular como os jogadores de basquetebol? Na minha escola, ele não seria popular de certeza, ele seria muito gozado.

11. A Jessica não merecia ser uma das razões para o suicídio da Hannah: Eu não percebo esta personagem, não sei se a série quer que eu a odeie ou não. De qualquer das formas, eu não consigo odiar a Jessica, e acho que ela não merecia ter uma cassete com o nome dela. Sim, a rapariga acusou a Hannah de lhe roubar o namorado, deu-lhe um estalo e virou-lhe as costas, mas a  Hannah não a podia perdoar, dado o que ela passou? Quer dizer, a rapariga ficou muito alcoolizada numa festa, foi violada enquanto estava inconsciente, e o próprio namorado ainda encobriu a violação. No máximo, quem devia estar zangada era ela com a Hannah, porque esta também não lhe contou que ela foi violada ( embora eu compreenda porque não tenha contado, eu também não saberia o que fazer nesta situação).

12. Eu não queria meter o dedo na ferida, mas vamos falar da violação da Hannah: Eu sei que, muito provavelmente, metade das pessoas que lerem isto me vão apedrejar até à morte, mas eu tenho que falar disto, porque me incomoda. Ok, a rapariga não teve culpa nenhuma de ter assistido a uma violação sem a impedir, eu no lugar dela também ficaria quieta e paralisada de medo. Porém, a violação dela, desculpem ter que dizer isto, poderia ter sido facilmente evitada. Em primeiro lugar, que tipo de pais é que a deixam sair sozinha, às 22 h, numa noite chuvosa? Os meus pais nunca na vida me deixariam sair sozinha, sem saber para onde eu ia! Pronto, mas passando à frente a parte em que ela saiu, ela encontra uma festa, entra e até aí tudo bem. Agora, o que não está bem é ela aperceber-se que a festa decorre na casa de um violador e continuar lá, como se nada fosse. Eu se tivesse na casa de um violador, fugia a sete pés! Pronto, mas mesmo até aqui a coisa ainda tinha solução, mas a partir do momento em que ela se deixa ficar sozinha, no jacuzzi, com um violador, eu vi logo que aquilo ia dar para o torto! É que eu não reclamo com ela por ter ido para o jacuzzi, porque mesmo aí ainda tudo podia ser evitado, mas quando viu o pessoal todo a ir embora, porque é que não foi também? Não, fica ali sentada, especada a olhar para um gajo que sabe que é um violador. Sinceramente, perdoem-me por dizer isto, mas a rapariga tem péssimos instintos de sobrevivência.

13. Nunca, em nenhum momento da série, abordaram o assunto de doenças mentais: É muito provável que metade das personagens sofresse de depressão, no mínimo. Mas isso nunca foi abordado em nenhum momento da série, o que eu considero que é um dos erros mais graves. As doenças mentais estão a atingir cada vez mais jovens, pelo que era importante falar deste assunto que, infelizmente, ainda é tabu, e não é visto como uma doença digna como partir uma perna.


Pessoal que já viu a série? Concordam com os pontos que referi? Com o que é que não concordam e porquê?

28.5.17

Estágios de Enfermagem: Professores ou Enfermeiros Orientadores?


Não sei se sabem, mas este ano mais de metade dos professores da Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho decidiram fazer greve durante o período de estágio dos alunos ( ou seja, desde 6 de fevereiro a 23 de junho). Na altura, muitos estavam preocupados ( e com razão!) com o impacto que isto poderia ter na avaliação dos alunos. Não sei como é que é noutras faculdades, mas aqui todos os alunos até ao 4º ano eram ensinados por professores nos seus campos de estágio. Durante este greve, passaram a ser ensinados único e exclusivamente por enfermeiros orientadores dos serviços.

Quando soube da greve, fiquei preocupada por esta ausência de acompanhamento de professores mas agora, após quase três meses de estágio, cheguei à conclusão que esta mudança até foi boa. Agora já não me imagino a ser orientada por outras pessoas que não os próprios enfermeiros que trabalham em cada campo de estágio.

Se pensarmos bem, faz muito mais sentido os alunos de Enfermagem serem acompanhados por enfermeiros orientadores, que trabalham nos próprios serviços e que têm conhecimentos aprofundados em determinada área, do que serem orientados por professores, que provavelmente já não trabalham há anos e que podem não ter experiência nenhuma em determinados serviços, como Ortopedia. Portanto, na minha opinião, é muito melhor para nós, alunos, sermos ensinados por enfermeiros orientadores.

Esta mudança de método de ensino tem sido muito vantajosa para mim. Já aprendi muito mais do que, provavelmente, aprenderia se só fosse ensinada por professores da minha faculdade. Espero que este método de ensino continue nos próximos anos e nos próximos estágios.

27.5.17

13 coisas que eu não gostei em " Thirteen Reasons Why" ( sem spoilers)


Desde que a série " Thirteen Reasons Why" estreou, no dia 31 de Março, que se tornou imediatamente viral e  tem dado muito que falar. Na altura, como estava bastante ocupada com o estágio, não a consegui ver, mas há uns dias atrás pude finalmente satisfazer a minha curiosidade, e perceber o motivo de tanto alarido e polémica em torno da série.

Para quem não sabe, a série fala de uma jovem, a protagonista Hannah Baker, que se suicidou. Passado duas semanas, Clay, outro protagonista, recebe uma caixa com cassetes lá dentro. Ele fica surpreendido quando percebe que quem as enviou foi Hannah, e que, se as está a ouvir, é porque é uma das razões pelas quais a jovem se matou. As 7 cassetes, que têm todas dois lados ( mesmo a última, que contém a gravação número 13),  têm que  passar por todos os nomes da lista de Hannah, caso contrário, as gravações tornam-se públicas.

Quem me segue pelo Twitter sabe que, quando comecei a ver, era da opinião que esta série ia sensibilizar os jovens para procurar outros caminhos que não o suicídio. Contudo, à medida que fui vendo a série, comecei a aperceber-me que a esta, apesar das boas intenções, estava a fazer exatamente o contrário, a promovê-lo e até mesmo a glorificá-lo. E essa é apenas uma das coisas que não gostei nesta série.

Não me atirem já pedras nem me julguem! Houve muitas coisas que gostei na série. Tenho que dar o devido mérito pela escolha do elenco, e pela sua incrível prestação, bem como a escolha das músicas, que se adequam na perfeição a cada cena. Também gostei do facto de esta série retratar adolescentes reais, com problemas reais, como o bullying, pondo clichés de parte. Contudo, apesar de ser uma série viciante e intrigante, tem muitos defeitos que não consegui ignorar e que decidi falar hoje neste post. Este post não terá spoilers, para quem não viu a série poder ler mas, quando puder, estou a planear fazer uma versão com spoilers para poder discutir mais aprofundadamente certos assuntos.

Desculpem o post longo, mas queria dar a minha opinião bem fundamentada.


1. Simplifica o suicídio e dá ideia que há sempre alguém que tem culpa: Meus caros amigos, o suicídio não é simples. É uma doença mental e, como tantas outras, bastante complexa. Claro que, muitas vezes, muitas pessoas suicidam-se por desespero, como falta de dinheiro, desemprego, bullying,.. No entanto, há outras tantas vezes em que as pessoas se suicidam sem nenhuma razão aparente, isto porque nem sempre há razões que expliquem isto. Não tenho nenhuma formação em psicologia, mas sei que o suicídio não é algo linear. Pessoas diferentes respondem de maneira diferente a situações traumatizantes, e algumas podem suicidar-se e outras não. Às vezes, uma pessoa com uma vida aparentemente feliz, pode suicidar-se, porque não está bem interiormente. Portanto, não podemos generalizar nem achar que há sempre alguém responsável pelo suicídio de uma pessoa.

2. Realça o mito que o suicídio é egoísta: Eu sou da opinião que o suicídio não é egoísta. Quem o faz é porque acha que não tem outra solução a não ser tirar a sua própria vida, e não por " vou me matar que é para verem como eu faço falta às pessoas". No entanto, quem acredita nesse mito e vê a série, ainda fica a acreditar mais. O facto de a Hannah mandar cassetes a contar aquilo que os outros lhe fizeram é desconfortável, e é assim que deve ser, porque a moral da história é nós reconhecermos que as nossas ações podem ter efeitos que desconhecemos em pessoas que conhecemos. Mas o que é ainda mais desconfortável é assistir à forma cruel como a Hannah expõe o que lhe fizeram, como se o suicídio fosse a única forma de a voz dela ser ouvida.

3. Foca-se na ideia de que o bullying leva a suicídio: Já todos ouvimos histórias de jovens que sofrem de bullying e que se suicidam, mas será que é sempre assim? Li há uns tempos na net uma psicóloga a dizer " a tua experiência de bullying é válida mesmo que não sintas vontade de te suicidar, e os teus sentimentos de suicídio são válidos, mesmo que nunca tenhas sofrido de bullying", e é tão verdade! Tal como já disse, pessoas diferentes reagem de maneira diferente a experiências traumatizantes. Eu já sofri de bullying, e não foi por isso que me suicidei. É certo que não sofri tanto como muitos jovens, mas ainda assim demorei imenso tempo a ultrapassá-lo, e ainda hoje tenho algumas sequelas. Além disso, já vi, infelizmente, muitos jovens a passarem pelo mesmo, mas que conseguiram dar a volta por cima e ser felizes. A verdade é que, com apoio, força de vontade e muita perseverança é possível ultrapassar este tipo de experiências traumatizantes.  Não quero estar aqui a desvalorizar o bullying e a dizer que é normal, porque não o é, só estou a dizer que nem todos os jovens que sofrem de bullying se suicidam, que é o que a série aparenta transmitir.

4. Mostra o suicídio como uma forma de vingança: O facto de a Hannah gravar cassetes com os supostos responsáveis pela sua morte dá a ideia que ela se está a tentar vingar pelo que eles lhe fizeram. Eu sei que, provavelmente, não era essa a ideia que queriam transmitir, mas é o que parece!

5. A série toda transforma o suicídio em algo entusiasmante: Se pensarmos bem, toda a série é construída em torno de uma cena que, vamos admitir, toda a gente quer ver, a cena do suicídio, que é, digamos, o clímax da série. Criam muita antecipação, muito suspense em torno do momento, criando entusiasmo em torno de um suicídio. O suicídio não é suposto ser entusiasmante, não é algo que deva ser aguardado ansiosamente.

6. Cenas demasiado detalhadas: Ok, ok, eu sei que é suposto estas cenas darem um ar mais real e chocante à série, mas não nos podemos esquecer os miúdos de 12/13 anos também são o público-alvo. Portanto, das duas uma, ou os produtores metiam estas cenas menos explícitas, ou então classificavam a série como maior de 16 anos ( o que não adiantaria de grande coisa, porque os jovens gostam de ver coisas que supostamente não é para a idade deles, mas ao menos estavam avisados e não eram apanhados de surpresa). É que há cenas que até a mim, que já tenho 20 anos e já vi muitos filmes mais violentos, me fizeram tremer. Principalmente, a cena do suicídio de Hannah Baker, que até tive que desviar o olhar algumas vezes!

7. Mostra o método exato de suicídio: E por falar em cenas detalhadas, falemos da cena de suicídio. Na minha opinião, foi demasiado detalhada. De acordo com muitos psicólogos, nunca se devia mostrar em filmes e séries os métodos exatos de um suicídio, porque isso pode aumentar exponencialmente a taxa destes. Eu não sou de uma opinião tão extrema ( porque gosto de filmes que retratem também a realidade) mas, tendo em conta que o público-alvo desta série é muito jovem, é mais vulnerável a estas cenas e, ainda mais perigoso, pode querer imitá-las.

8. Retrata a ideia irrealista que o suicídio é muito bem planeado: Ao vermos a Hannah a gravar cuidadosamente cada cassete, a contar calmamente cada história, com um tom sarcástico, dá a sensação que ela planeou tudo meticulosamente de forma racional, incluindo o seu suicídio. Na realidade, uma pessoa que se suicida, é uma pessoa que é emocionalmente instável e/ou está a passar por um crise emocional, pelo que é praticamente impossível ser racional ao ponto de gravar cassetes e planear antecipadamente a sua morte, especialmente se for um adolescente que ainda está a construir a sua identidade.

9. O suicídio não é glamoroso: " Thirteen Reasons Why" mostra o suicídio como algo glamoroso, romântico até. Contudo, o suicídio não é romântico, é uma doença. De acordo com vários estudos, 90% das pessoas que cometem suicídio sofrem de alguma doença mental. Portanto, é preciso parar de romantizar o suicídio e parar de mostrá-lo como uma forma de nos revoltarmos contra as insjutiças da vida e de nos tornarmos heróis.

10. Pode tornar o suicídio uma moda: Após o fenómeno " Baleia Azul", é seguro dizer que a geração atual de adolescentes está, mais do que nunca, muito vulnerável a sofrer de depressão e, sobretudo, a tentar o suicídio. Portanto, séries como esta só irão exarcebar este problema, fazer com que o suicídio se torne numa tendência cada vez maior entre jovens, em vez de o combater.

11. A série não sugere nenhuma forma eficaz de combater o suicídio: A série não sugere nenhuma forma para prevenir o suicídio. Fala-se tanto sobre este tema, mas, em nenhum minuto de nenhum episódio sugerem uma medida sequer para combater este problema. E se o objetivo era combater o suicídio, acho que isto deveria ter sido feito.

12. Não me consegui identificar com a Hannah: Acho que muitos concordarão comigo que uma das coisas que mais contribui para gostarmos de um filme ou série é identificarmo-nos com a personagem principal, sentir que estamos a vivenciar o mesmo que ela e a ter as mesmas emoções. Contudo, não me consegui identificar, de todo, com a Hannah Baker. Achei-a demasiado dramática, egoísta e muito mimada. Tudo bem que ela passou por muitas experiências traumatizantes mas, na minha opinião, e sem querer dar spoilers, existiram personagens com razões muito melhores para se suicidarem do que a dela, se avaliássemos o suicídio em termos de razões como a série fez.

13. Acabaram por incentivar o suicídio em vez de o combater: Este é o grande problema desta série. Eu sei que o objetivo era combater o suicídio, sensibilizarem os jovens, mas falharam redondamente! Acabaram até por promovê-lo. Acabam por mostrar o suicídio como forma de uma pessoa ser imortalizada ( no início do primeiro episdódio, é mostrado um memorial de Hannah Baker, e antes dela morrer ninguém queria saber dela), admirada e até glorificada. Já estou a imaginar raparigas novinhas a ver a personagem principal como um ídolo, e a querer fazer o mesmo! Os realizadores e produtores de filmes/séries têm que ter, mais do que ninguém, cuidado a transmitir mensagens!


E vocês? Já viram " Thirteen Reasons Why"? O que acharam?